domingo, 20 de agosto de 2017

Raul Seixas - Krig Ha Bandolo


No bar um senhorzinho com os cabelos grisalhos, o rosto sulcado, as unhas sujas e carcomidas, as roupas com respingos de tintas, um pintor de construção de civil eu deduzi. Sorria descontraidamente, dois copos de cachaça goela abaixo depois, dezenas de caretas. Pede o violão pro dono do bar, só então reparei que sua unha do dedo anelar estava roxa, certamente uma martelada errada que custará daqui uns dias a perda da unha. Nos primeiros acordes ele logo percebeu que o violão precisava de afinação e, quando ele afinava vislumbrei o local aonde eu me encontrava, só pessoas que deram erradas na vida. Na extensão do balcão homens cabisbaixos, banguelas, com tiques pavorosos como mexer as sobrancelhas sem parar ou movimentar o ombro pra cima repetidamente, tinha uma moça que ficava girando um molho de chaves sem parar, um pedinte querendo salgado e uma mulher com shorts curto com cara de periquito que, piscava seus olhos pra todos os homens que estavam ali, ela piscou pra mim também. É, na verdade eu fazia parte das pessoas naquela extensão do balcão, pessoas que deram errado na vida.  Alcoólatras, assassinos, prostitutas, desempregados, desamados, bipolares, enfim... O senhor de cabelo grisalho começou a cantar:



Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


Aconteceu uma coisa estranha naquele momento, houve um silencio na plateia de pessoas que deram errado na vida, testemunhei lágrimas que escorriam dos olhos dos desdentados, das prostitutas e dos assassinos, lágrimas silenciosas e preguiçosas, alguns tentavam disfarçar olhando para o teto, outros que pediam pra garçonete mais uma dose de alguma bebida mais forte. Eu fiquei perdido ali em pensamentos, absorto, infeliz, incapaz de me mover, até pedi pra Deus que convertesse toda aquela minha tristeza, toda aquela mágoa que tomava posse do meu corpo em lágrima porém, Deus que foi capaz de transformar a água em vinho não conseguiu transformar minha mágoa em lágrimas.

Alguns dias depois, eu caminhava pelo centro da cidade de Pindamonhangaba, confesso que já havia ingerido bebida alcoólica suficiente que, a cada passo que eu dava tudo ao redor tremia: os carros, transeuntes, arvores, monumentos históricos e até cachorro que fuçava o lixo. No meu pensamento Franciele, metade da minha idade e metade do meu conhecimento. Não lia, não interessava por cinema, não torcia para o Corinthians, nunca ouviu falar do Nirvana porém, tinha um corpo acima da média.



Tomei coragem e convidei-a para ir barzinho que tocava bandas covers de rock, achei que ela poderia gostar do Guns n Roses. Quem não gosta de Guns N Roses? Pra ser sincero eu não gosto porém, a maioria das pessoas que eu conheço gostam. Franciele gostou da cerveja e da pizza. Enfim, não gostou da banda, reclamou várias vezes do barulho da guitarra e da bateria, achou o vocalista desafinado e gordo. Eu que não gosto do Guns no entanto, queria ficar até o fim da apresentação. Ela não, queria ir embora de todo jeito e, quando levantou-se, deixando à mostra aquele piercing no umbigo me convenceu de ir embora.

_Vou levar você num rolêzinho, só pra você ver o que é diversão.

Bem, depois de tanta insistência de Franciele aceitei o convite para um rolezinho, o lugar era conhecido como Praça da Bíblia, muita gente, a praça lotada. Talvez, eu demorei um pouco para perceber que estava no meio de crianças de quatorze e dezesseis anos de idade a grande maioria, crianças chapadas de bebidas alcoólicas, chapadas de maconha, meninas com roupas curtíssimas dançando ou sei lá, insinuando. Carros, muitos carros com sons potentes, a música funk com letras de apelos sexuais, Franciele rebolava na minha frente com metade da bunda pra fora.



_Cê tá gostando amor?

No momento que Franciele me fez está pergunta veio em minha cabeça o meu escritor favorito, o depravado Henry Miller que, sua trilogia Sexus, Plexus e Nexus, tornava-se tão pequena e inocente diante que meus olhos testemunhavam ali. A bunda Franciele era linda, parecia um coração de tão perfeita que era. Porém, naquele dia eu fiquei tão perplexo com todo aquele movimento que, a bunda de Franciele nada mais era que uma bunda dançante descontrolada no meio daquele alvoroço de bundas descontroladas.

Longe daquele tumulto eu avistei viaturas da polícia estacionando próximo ao local, com cassetetes nas mãos, começaram a correr em nossa direção. Franciele me puxou pelos braços:

_Corra a polícia – Gritou ela.

Comecei a correr sem saber o porquê? A corrida me fez sentir uma adrenalina incrível, de certa forma me fez voltar a minha adolescência quando eu corria do terrível Manuel, o dono de um sitio, onde eu meus amigos íamos furtar laranjas, o terrível Manuel saia com uma espingarda de chumbinho feito louco atrás da gente mas, tínhamos quatorze, quinze anos de idade com um folego e energia incrível.
Muito bem lembrado, eu já não tinha quatorze anos de idade e o folego já não era o mesmo, não conseguia acompanhar Franciele naquela corrida louca, foi quando a pancada de cassetete na minha nuca me fez cair, Franciele ria com seus amigos daquela aventura que pra mim tinha acabado.

Ouvi o policial falando todo eufórico para o seu superior:

_Pegamos o traficante, Senhor.

Enquanto veio outro policial e com os seu coturno me deu chute na minha barriga que, perdi quase por completo a respiração, levantaram me com brutalidade e me questionando:

_Cadê as drogas, hein?

_Senhor, eu sou trabalhador – Disse isto com muita dificuldade.

Foi explosão de risos dos policias.

_Sargento o indivíduo aqui falou que é trabalhador – E continuaram rindo, foi então que o sargento aproximou-se, eu cabisbaixo com uma dor enorme na barriga, não tinha coragem de olhar para Sargento, tinha medo de levar uma bofetada no rosto. Percebi que ele ficou parado na minha frente e então, resolvi lentamente olhar em sua direção.

_Nossa! Era mesmo quem estava pensando. Que você está fazendo aqui, rapaz?

O sargento da polícia era um velho amigo, servimos o serviço militar junto e continuou:

_Aqui não é lugar pra você, nem combina contigo. Vai dizer que está ouvindo funk agora?

Nem esperou qualquer explicação minha, olhou para os seus comandados e disse:

_Ele está liberado, não é o traficante.

Quando os policiais foram embora me deixando ali, as dores na barriga aumentaram consideravelmente, minha sorte que a Praça da Bíblia é próximo do Pronto Socorro, e, com muita dificuldade consegui chegar lá. A dor era tanta que comecei a gemer sentando, a demora para passar na triagem aumentava o meu desespero, uma mulher do meu lado tirou o celular da bolsa e começou a me filmar. Questionei:

_Moça, você está filmando moça, sério isso?

_Vou enviar para o Facebook, na página Pinda Cidadã. A culpa é do prefeito – e conferindo a gravação complementou: Nossa vou receber muitas curtidas. Valeu moço!

Dizendo isto foi embora.

Passei pela triagem e fui atendido pelo médico, já era quase vinte três horas. O médico parecia mais preocupado com o seu celular:

_Então, o que vc está sentindo? – indagou o médico olhando de soslaio para minha direção mas, preocupado mesmo com o celular.

_Estou com uma dor terrível na barriga – e o médico me interrompeu, largando o celular e pegando a caneta para fazer a receita de medicamentos.

_Já sei, é virose, você é o quarto paciente que vem aqui com os mesmos sintomas.

E foi logo escrevendo a receita.

_Doutor, eu levei um chute na barriga de um policial.

Não sei ao certo o que médico pensou mas, ficou amedrontado, talvez pensando que eu fosse um bandido de alta periculosidade, abriu a gaveta apressadamente e me deu alguns remédios de amostras grátis para dor e infecção, só não tirou raio x pois, o aparelho do Pronto Socorro estava quebrado.

Noutro dia acordei cedo com um pouco dor na barriga ainda apesar, do remédio que havia tomado antes de dormir para aliviar a dor. Queria tirar foto, tinha necessidade de sair para ruas clicando tudo que meus olhos testemunhassem pela frente, fotografia pra mim tinha transformado como válvula de escape, jamais pensei em ganhar dinheiro com fotografia, eu só queria que minha fotografia retratasse o que eu estava sentindo, que se fosse dor, rancor ou mágoa que transmitisse da forma mais bonita possível.

Foi nesse dia que eu reencontrei o senhorzinho de cabelos grisalhos que tocava violão no barzinho e, se não fosse a música do Raul Seixas acho que passaria direto sem perceber que ele estava ali sentando,encostado num monumento da praça, acho que é uma águia que tem na Praça Monsenhor Marcondes. Bem, a música era “Rockixe”:



Você é forte, faz o que deseja e quer

Mas se assusta com o que eu faço, isso eu já posso ver
E foi com isso justamente que eu vi
Maravilhoso, eu aprendi que eu sou mais forte que você.


Sentei do seu lado como se a música do Raul Seixas me atraísse como imã, ele estava com radio pequeno e antigo com um toca fita que naquele que momentos depois começou tocar “Cachorro Urubu”, num coro desafinado comecei a cantar com ele:





Todo jornal que eu leio

Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou


Perguntei:

_Você se lembra de mim?

O senhorzinho me encarou por alguns segundos.
_Lógico que me lembro, você era o cara que estava no bar alguns dias atrás, estava perdido, com olhos tristes, pensativo. Você é o cara das fotos, certo?

E antes que eu pudesse responder ele continuou:

_Amo suas fotos apesar, de ver algo gritante nas entrelinhas.



Eu disse:

_Você gosta do Raul, hein?

_Kri-ha, Bandolo é o álbum da minha vida.




Ficamos em silencio quando tocava Ouro de Tolo, reparei que tinha um taxista que olhava a todo momento para nossa direção, os pombos também já faziam presentes na praça, azaleias floridas com visitas de alguns beija-flores. O taxista aproximou e disse com olhar triste para o senhorzinho de cabelo grisalho:

_Você perdeu sua bicicleta.

_Como assim?

_Aquele homem que pegou sua bike, não volta mais.

_Como você sabe?

_Olha, acabaram de postar a foto dele na página Pinda Cidadã “ladrão de bicicleta”. Daí, eu pensei “Porra esse cara estava quase agora aqui”.

O senhorzinho levantou desorientado:
_Filha da Puta – Caminhou até o ponto de taxi, olhou demoradamente para direita, coçou a cabeça com as duas mãos, voltou-se vagarosamente e, sentou-se ao meu lado, aumentou o volume do som e disse olhando pra mim:- Não acredito e, seu falar pra você, você também não irá acreditar.

Quando a fita terminou, ficou um tempo rebobinando a fita do seu radio, quando terminou apertou o play e a voz de Raulzito novamente se fez presente:

_Minha Bicicleta nem é tão nova assim, o valor é mais sentimental foi presente de aniversário de minha filha – Tentou espantar os pombos que se aproximavam mexendo os braços num vai e vem.

_Desgraçado – Continuou:- Foram três dias de lábias pra conseguir minha bicicleta, você acredita nisso?

_Como assim? Questionei.

_Há dois dias atrás estava eu aqui logo de amanhã, ouvindo o meu Raul Seixas como sempre faço quase todos os dias e, esse indivíduo aproximou-se bem apessoado, com linguajar diferenciado, reparou minhas calças sujas de tintas e não titubeou foi logo perguntando

“Você trabalha em construção civil?”. Eu respondi que era pintor então, ele me falou que trabalhava em sociedade com um amigo, que era mestre obra e, iria pegar uma obra grande e que precisaria de pintor. No dia seguinte ele voltou aqui de manhã falando que tudo estava certo, falou o quanto eu ganharia por dia que, me pegava ali mesmo na Praça, colocaria a bicicleta em cima da caminhonete do seu sócio e, iriamos até local, que eu não precisaria levar almoço e café, a firma forneceria tudo. Acreditei piamente no que ele dizia.

Riu olhando para direção do último beija-flor que restava na bela azaleia florida e continuou:

_Eu compareci aqui hoje, bem antes do horário combinado, precisando de serviço e com o aluguel atrasado. Ele apareceu sorridente vestido como um grande empresário. Cumprimentou com um abraço demorado, perfume forte, pensei, deve ser caro, bem diferente do desodorante que eu uso e, quando uso. Olhou para o relógio e, foi logo dizendo: “Estamos com um pequeno probleminha aqui, meu celular ficou no Centro comercial e, eu estou sem contato com o meu sócio. No entanto, o rapaz do centro comercial que arruma celular abriu uma exceção para mim, disse que poderia pegar o celular agora de manhã. Você não emprestaria sua bicicleta só pra mim pegar o celular ali, é rapidinho.”  
Porra como eu ia desconfiar de um cara bem apessoado iria roubar uma bicicleta seminova. Meu Deus o que está acontecendo com mundo?



Sai dali triste com toda aquela historia foi quando Franciele me ligou:
_E ai, o que rolou com a policia?

Olhei para os pombos, para azaleias floridas da praça e desliguei o celular sem ao menos dizer alô.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Legião Urbana - A Tempestade ou O Livro Dos Dias (Recapitulando)


Legião Urbana

A Tempestade ou Livro dos Dias da Legião Urbana era o álbum preferido de Cristina. Na verdade Cristina adorava a discografia inteira dos caras, não posso afirmar que Cristina era fã mais fanática pela banda pois, tratando-se da Legião Urbana que, pra  muitos é uma Religião...
... Renato é nome do meu filho mais velho e Eduardo do caçula. Tudo na vida de Cristina tinha um pouquinho da Legião.
Se o dia estivesse ensolarado lá estava Cristina cantarolando:
Quando o sol bater na janela do seu quarto...”.
Se o céu estivesse nublado:
Corre, corre, corre. Que vai chover. Olha a chuva!”.

Eu conheci a Legião Urbana desde do seu primeiro sucesso radiofônico “Será” em 1985. No entanto a Legião estava apenas engatinhando no que ficou conhecido como Rock Tupiniquim pois, naquele ano o cenário era dominado pelo Ultraje a Rigor (Lp : Nós vamos invadir sua Praia), Kid Abelha  e os Abobaras Selvagens (Lp: Seu Espião), Paralamas do Sucesso (Passa do Lui) e etc...
Foi uma época muito produtiva no Rock Nacional, talvez pela própria situação política o jovem tinha muito o que falar e acabava expressando através da musica, do Rock Tupiniquim.

Ultraje a Rigor




A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
Que nóis é indigente...

Conheci a Legião Urbana antes do Joy Division e do Morrissey por isso convivi com a certeza por alguns anos que o Renato Russo era o cara mais autentico do Rock.
Não importa. Alias pra Cristina isto nunca importou. Ela sempre me questionava.
_Quais de suas bandas favoritas hoje em dia que são autenticas?
Devido a minha demora Cristina insistia.
_Qual?
_ The Prodigy.
_Que The Prodigy que nada. Você nem gosta disso.


Enfim...

Fui eu que presenteei Cristina no seu aniversário com álbum “Tempestade”. Na verdade era uma compra indireta pra mim mesmo, pois naquela época ela nem conhecia a Legião Urbana direito. Conhecia o que tocava na radio. Alias Cristina fez o caminho inverso, começou pelo o ultimo. Para ela o Renato Russo ou a Legião Urbana (às vezes acho que o Renato Russo era a Legião Urbana) fosse o personagem do  filme "O Curioso Caso de Benjamin Button”.

_ Eu posso não ser a fã numero um da Legião Urbana mas, talvez seja a única que conheceu a Legião desta maneira. 
_Que maneira?
_Do fim ao começo.

Eu sempre achei que morreria antes de Cristina pelo simples fato de ser o homem, de beber, de fumar, de dormir pouco. Quantas e quantas vezes eu pensei na morte e, tantas e tantas vezes eu cheguei bem perto. Cristina amava a vida, amava seus filhos, me amava.

Eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender
Eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender

A casa está vazia Cristina se foi, as crianças vivem nas casas dos avós, o jardim que era a paixão de Cristina hoje é um matagal enorme.
As vezes penso que Deus foi desonesto comigo

Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar
Meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre a meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomasse como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

The Antlers - Burst Apart (Recapitulando)



Domingo é o dia que ouço todos os álbuns que eu baixo durante a semana. E, este domingo a minha expectativa maior é sem duvida The Antlers – Burst Apart. Li coisas boas e interessantes sobre este lançamento. Vamos lá.

I don’t want love”. 
Juro que tinha apertado o play e já estava na direção do banheiro pra fazer a barba porém, 
 Peter Silberman:
 
You want to climb up to stairs”
“Você quer subir as escadas”
“I want to push you right down”
“Eu quero empurrar você para baixo”

The Antlers, realmente mudaram, musicas mais introspectivas, com sutilezas e belos arranjos vocais. Voltei pra sala sem a menos tocar na barba. Acho que este jeito desleixado está “up” outra vez, os integrantes do Band of Horses e Fleet Foxes abusam das barbas enormes.
O refrão me fez lembrar de Fernanda:

I don't want love
Eu não quero amor
“I don't want love
Eu não quero amor

Na semana passada Fernanda havia me questionado sobre Cristina  porém, eu já tinha perdido Cristina muito antes disso:  

http://relatoestrepito.blogspot.com.br/2017/06/wild-beasts-smother.html
  
O silêncio de Cristina me preocupava, a ausência do seu sorriso me deixava sem saber o que fazer, ela já não me ofendia, já não gritava comigo, já não dizia que ia embora pois, estava cansada com esse relacionamento. Juro por deus que preferia quando o seu choro ficava incontrolado, e suas mãos tremulas atiravam pratos e copos na minha direção. Eu me sentia melhor quando ela dizia como estava arrependida de ter casado comigo, que ela merecia algo melhor, que meus filhos mereceriam um pai melhor. Cristina me chamava de bêbado imprestável perto dos meus filhos, dizia que eu era um fumante de merda e que se envergonhava de mim, do meu modo de vestir e da minha barba.

No Window


Tem uma introdução bem manjada, o Garbage já havia feito isto repetidas vezes nos 90. No entanto o vocal do Peter sobressai mais uma vez, numa afinação que parece ser simples e, com arranjo inquestionável acaba cometendo a melhor ou umas das melhores canções do ano.

Cristina estava entregue aos pensamentos secretos, entregue a morbidez em sua pele pálida. Insípida, lânguida e cabisbaixa, sem reflexo algum. Neutra, sem sintomas de melhora ou piora. Cristina já não se importava com a fumaça do meu cigarro ou, se estava embriagado ou não.
Passei a me vestir do jeito que Cristina gostava, combinando cores e sapatos, passei a fazer barba com mais freqüência, parei de fumar no quarto. Tudo isso numa tentativa de tirar Cristina de sua dormência, assobiava alegremente alguma musica que sei que ela gostava, Cristina permanecia cabisbaixa e quase imóvel, as vezes os dedos da sua mão direita se mexiam talvez involuntariamente e desentronizados. Pior que tudo isso, é que Cristina chorava, não um choro compulsivo; o choro de Cristina não existiam lagrimas, não existiam soluços, não existia um motivo aparente. Cristina chorava por dentro, imagino eu, que suas as lagrimas faziam um caminho contrario, deslizavam pelos seus órgãos internos ou de alguma maneira findava-se em sua corrente sanguínea.

Corsicana”.

É outra bela canção. Aos fãs ardorosos de “Hospice” uma grande decepção, talvez a maior do ano mas, pra quem ta afim de ouvir um dos melhores álbum de 2011 tai a dica.

Cristina só se levantava para os afazeres domestico, ainda assim era uma outra Cristina. Uma Cristina robótica, com movimentos controlados, até mesmo quando provava o tempero da salada, não demonstrava se estava salgado ou faltando sal, talvez o chip de sua língua que detectava o paladar estivesse queimado.
 Cristina preparava a mesa com salada, arroz, feijão, contrafilé e suco artificial de laranja, e, quando todos estavam assentados Cristina começava a rezar sem sentimentos talvez, para um Deus robô.
Quando a noite caia me isolava no fundo do quintal, longe de Cristina e das crianças, abria uma garrafa de vinho e acendia um cigarro. Às vezes o meu silencio expressava tudo o que sentia, as vezes o meu silencio não expressava nada do que eu queria dizer. Eu conheço bem o meu silencio, Cristina conhecia bem o meu silencio. Sabia o que ele significava. Eu não conhecia o silencio de Cristina, eu não sabia o que o silencio de Cristina significava. Confesso que quando Cristina estava triste a casa toda ficava mais triste e, agora com sua ausência, as rachaduras nas paredes tornaram-se maiores, a luz da cozinha tornou-se lúgubre e no corredor transitavam um numero maior de baratas.

Putting the dog to sleep”.

É quase um blues ou é novo blues…

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sepultura - Kairos




Sepultura???Num blog com o nome Tendência Indie... (Essa do tempo que Blog ainda chamava-se Tendência Indie).



...Meu filho mais velho me ligou na quinta feira  a noite. Ele me disse que iria passar o final de semana comigo. Devo lembrar que desde da morte da minha esposa meus filhos foram morar na casa dos meus sogros e, dificilmente existia um contato físico entre a gente. Ligo para eles uma ou duas vezes por semana e, é sempre rápida e evasiva nossa conversa. Até mesmo quando Cristina estava entre a gente já existia este distanciamento principalmente entre eu e o Renato (meu filho mais velho).
Liguei pra Fernanda (a mulher que no coloquial fica assim: a mulher que tenho catado). Expliquei para ela que aquele final de semana eu não iria ao Bar do Jaime( um boteco mal iluminado e com enormes teias de aranhas no telhado. Era sempre ali neste ambiente exalando à mofo o principio de uma grande trepada).
Fernanda entendeu perfeitamente o meu motivo e ainda, a par da situação me aconselhou:

_É sua chance de ser Pai realmente.

Ouvir isso de Fernanda me fez lembrar de Cristina e de suas cobranças:

“_Voce nunca foi Pai para seus filhos” “Será que voce não consegue ser Pai uma única vez na sua vida” “Não é porque você nunca teve Pai que, você não consegue ser Pai” “Eu sou mãe e Pai dos meus filhos”

Sábado acordei bem cedo e decidido, iria dar uma geral no quintal, podar as plantas, lavar as louças enfim, fazia quase um mês que não via o meu filho. 
Bem, as 11 horas da manha já tinha acabado tudo, a casa parecia nova. De repente veio na minha cabeça “refrigerante” sai correndo pro supermercado.

 Na volta em frente ao portão o meu filho na minha espera, todo de preto com camiseta com estampa do Sepultura o álbum Arise. Lógico que estranhei, pois ele sabendo que sou fascinado por musica nunca comentou sobre musica comigo. Como assim, agora Sepultura. Sei lá, se estava querendo chamar minha atenção errou feio, fazia muito tempo que eu não ouvia metal e o Sepultura pra mim acabou quando Max saiu.

Eu tento ser forte a maior parte do dia, eu escondo minha tristeza muitas vezes em minha arrogância, eu tento ser forte usando o meu sarcasmo como escudo e, quando eu rio a falsidade camuflam minhas lagrimas. No entanto ver meu filho adentrando com passos lentos por aquele corredor cortou meu coração, imaginava o filme que estava passando em sua cabeça, certamente as lembranças da mãe fazia seus passos ainda mais lento, seu olhar demorado nas orquídeas. Segurou a maçaneta da porta, largou e olhou pra mim. Era notória sua tremedeira. Respirou fundo segurou a maçaneta e abriu a porta. Olhou rapidamente a sala e, foi para cozinha  direto e nem olhou  para o meu quarto melhor, o quarto de sua mãe.

Apenas pra quebrar o silencio eu disse:
_E essa camiseta do Sepultura?
_É igual que você tinha.
Respondi que era verdade mas, eu até tinha esquecido disso.
_Eu baixei o novo deles “Kairos”. Você já ouviu?
_Não – Respondi com vontade de dizer “O pai não houve Metal há década” No entanto me lembrei de Cristina “Será que você não consegue ser pai uma única vez na vida.” E continuei:
_ Você tem ai?
_ Tenho no meu celular. Cadê o computador eu, passo rapidinho pra você.
_ Ta na sala. Vamos lá.
Tenho a impressão se eu falasse “Está no quarto” Ele recusaria entrar.

Kairos



Confesso que minha empolgação de ouvir o novo álbum do Sepultura era zero. Sepultura sem os Cavaleras não era Sepultura.

Mais de novo eu ouvi a voz de Cristina “Não é porque você nunca teve Pai que, você não consegue ser Pai”.

Spectrum... Não me impressionou porém, era “Metal” bom. Coisa que o Sepultura do Derrick Green nunca fez.

Kairos... Opa!!! Realmente comecei interessar me pelo o álbum. Não é mentira o vocal lembra o Max. Dificilmente voce consegue ficar sem balançar a cabeça.

Dialog... É Pantera demais, que bom!!!

Com certeza é o melhor álbum do Derrick como frotman do Sepultura.

Jean Dolabella toca muito bateria.

Structure Violence (Azzes) poderia fazer parte de Chaos A.D.

Vale destacar o bônus track: Firestater do The Prodigy... Animal.

_ Pai Você gostou?
_ Nossa é bem louco. Calma ai vou pegar cerveja.


sábado, 29 de julho de 2017

Black Sabbath - Paranoid


Era três da manhã quando o telefone tocou, estiquei minha mão trêmula em direção ao criado mudo.

_Alô?

Do outro da linha um chiado ruidoso, cachorro latindo, vozes e risadas ao fundo. 

_Alô? Insisti e ninguém respondeu.

 Desliguei o telefone e ouvi um barulho vindo da cozinha.

Meu Deus, eu estou enlouquecendo. Durante a madrugada eu ouvi gargalhadas e vozes pela casa inteira, televisão que ligava desligava sozinha, cachorro que latia pelo quintal sendo que eu não tinha mais cachorro, luzes  que acendiam e apagavam sem ninguém tocar no interruptor. O barulho de gotas da torneira do banheiro, passos pelo telhado e um frio insuportável que me fazia bater os dentes debaixo do cobertor.

Tentei uma oração, um Pai Nosso mas, o rancor que apossava do meu coração me fez interromper pelo meio. As luzes continuavam acendendo e apagando.  O latido do cachorro aproximou-se da janela, o frio aumentou, levantei enrolado num cobertor, abri janela nenhum cachorro,  ouvi o pio de uma coruja no pico do poste de luz da rua, pensei mau agouro. Olhei para o relógio da parede 3 horas e 10 minutos da madrugada e, então começou a tocar no aparelho de som no canto do quarto Black Sabbath o álbum Paranoid, assim do nada. Detalhe o aparelho estava desligado da tomada. 


A partir desse dia que o aparelho ligou sozinho, comecei a ter uma visita estranha no quarto, as vezes a janela abria sozinha e o vulto ficava ali e outras vezes o vulto aparecia do meu lado em cima da cama. Nesses momentos o frio ficava quase insuportável, um cheiro de enxofre invadia o quarto,as batidas frenéticas e descompassadas do meu coração era tão forte que só faltava o coração sair pela boca, a primeira vez que isto aconteceu pensei, torci e desejei que um desmaio ocorresse e não ocorreu. 



O vulto usava um capuz preto, suas pupilas eram vermelhas e giravam sem parar, cobrir a cabeça sob o cobertor ou fingir um desmaio não adiantava nada, o vulto permanecia ali com seus olhos vermelhos giratórios. 
Um dia criei coragem e perguntei: 

_Quem é você? 
Estava tremulo. E sem muita delonga veio a resposta.
_Eu sou a morte, e vim te buscar.
Respondi assustado quase que num grito:
_Eu não quero morrer!!!
A morte desvencilhou seus olhos dos meus e o cheiro de enxofre ficou mais forte, rajada de um vento gélido derrubou portas retratos da penteadeira e, sua voz robótica ecoou em meus ouvidos:
_Você já está morto.
_Como assim? Indaguei. No entanto num passo mágica a morte desapareceu, o volume da música ficou mais alto fazendo tremer a imagem de Nossa Senhora Aparecida na mesa de cabeceira.


Porém, suas visitas tornaram-se constantes sempre as 3 horas da madrugada, sempre o mesmo odor de enxofre, sempre o mesmo frio insuportável e sempre o mesmo álbum Paranoid do Black Sabbath.

Uma noite a morte sentou-se na minha cama com um livro gigantesco, o frio fazia meus dentes entrarem conflitos num batimento frenético e audível. Então, a morte começou a folhear aquele livro cheios de fotografias, com imagens perfeitas que, cheguei piamente acreditar que a morte possuía uma Canom e, saia durante o dia disfarçada de vida para conseguir aquelas fotos. E, cada foto que ela me mostrava, tinha sempre um questionamento.

_Você se lembra dessa pessoa aqui?
_Lógico que me lembro.
_Ele te visitou nos primeiros dias que você estava sozinho, mostrou a maior preocupação com você, Certo?
_Sim.
_Veja foto, vejo o sorriso dele. Tá vendo, ele parece feliz. Você acha ainda que ele pensa em você?
Continuou:
_Essa foto então. Repare, ela está no barzinho com amigos tomando vinho, parece bem descontraída. Bem diferente de você, né?

Uma lágrima rolou pelo meu rosto, interceptei com a minha mão esquerda. No entanto, vieram outras e outras e, tudo ficou descontrolado com soluços e o nariz escorrendo.

_O problema sempre foi você, sem você na vida deles era somente felicidade... Eles dão risadas quando falam seu nome, fazem piada sobre sua tristeza, imitam seus gestos e sua voz com deboche... Qual foi última vez que alguém ligou pra você?

Antes que eu respondesse a morte antecipou:

_Eu sei, foi ontem a tarde, alguém te indicando um profissional, um psiquiatra – A morte foi até cozinha e voltou com uma de cerveja na mão:
_ Você está deprimido, está morto, fazendo e refazendo o mesmo caminho observando o que ninguém vê, testemunhando as folhas secas que desgrudam dos galhos das arvores num rodopio triste e melancólico até chegar ao chão. Eu sei quanto tem chorado e o quanto está confuso. Tenho acompanhado sua vida desde criança... Você se lembra quando caiu da bicicleta batendo a cabeça no asfalto?
_Sim, eu me lembro. Tinha oito anos de idade – argumentei.
A morte então me respondeu:
_Eu sei que você tinha oito anos de idade. Eu estava lá, do outro lado da rua. Teve uma outra vez que você se afogou no Rio e o seu irmão mais velho te salvou.
Eu questionei:
_Você estava lá também?
_Eu era redemoinho que tentava te levar para profundeza do Rio.


Prolongou-se alguns minutos de silencio até a morte fazer uma previsão.

_Haverá três dias de uma chuva incessante, dia e noite – Falando isto a morte desapareceu.

A morte estava certa, foram três dias de muita chuva, trovoes e relâmpagos. Três dias que centenas sapos invadiram o meu quintal durante a noite e ficaram em frente à janela do meu quarto coaxando repetidamente. Sapos de todas espécies: sapo cururu, sapo pipa, sapo malaio, sapo martelo, etc. Da janela eu atirava bolas de papeis, chinelos e latas de cervejas vazias tentando afastá-los no entanto, eles continuavam coaxando sem parar, numa somatório de sons diferentes e perturbadores.

 Justamente as três horas da madrugada apareceu uma luz tão brilhante no quintal que quase me cegou, os sapos pararam com o coaxar e, abriram um caminho para que aquela luz forte passasse por entre eles, fui obrigado atirar-me sobre minha cama para dar passagem para aquela luz que entrou pela janela, o aparelho de som não ligou no habitual álbum do Black Sabbath “Paranoid”, aliás não tocou musica nenhuma  e a luz brilhante rondou pela casa inteira, cozinha, sala banheiro e, depois voltou para quarto, ficou um tempo na minha frente como estivesse me observando, sumiu de repente, como um soprar de vela, apagou-se. E assim foi durante as três noites da chuva incessante, com centenas de sapos pelo quintal e com o itinerário que luz fazia pela casa inteira.

Na primeira noite após o término da chuva a morte voltou, fazendo a casa inteira tremer, dos seus olhos saiam faíscas de fogo, o cheiro do enxofre ainda mais forte do que nunca, centenas de cachorros rottweilers apareceram no quintal latindo sincronizado, a imagem de Nossa Senhora Aparecida caiu da mesa de cabeira transformando em cacos espalhando pelo piso frio do quarto, o aparelho do som estava no último volume à música era Paranoid, a voz de Ozzy Osborne misturava-se com os latidos dos cachorros:


Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind
Terminei com minha mulher porque ela não poderia me ajudar com minha mente
people think I'm insane because I am frowning all the time
As pessoas pensam que eu sou louco porque fico mal humorado todo o tempo
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify
Durante o dia eu penso em várias coisas mas nada parece me satisfazer
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify…
Acho que vou enlouquecer se não achar algo para acalmar...

A morte aproximou lentamente da minha cama, seus olhos agora jorravam labaredas de um fogo quase que vermelho, os latidos dos cachorros cessaram e sua voz robótica ecoou por toda casa:

_Então, procurou um psiquiatra – A morte riu até quase perder o folego, e, continuou: _Ajuda química para uma vida superficial. Não fique alegre com duas horas de sono, a maioria das pessoas suicidas acabam com suas vidas abusando na primeira crise bipolar da própria química que “cura”.

Falando isso a morte atirou em minha direção todo medicamento que eu tinha adquirido no dia anterior, com prescrição do psiquiatra, a morte continuou rindo:

_Você já leu a bula do remédio?
E antes de responder a morte me disse:
_É pequena diante da bula dos seus problemas. Você sabe que não vale pena remediar de uma situação que está fora do seu controle.
Dizendo isso a morte desapareceu e o som continuou:


And so as you hear these words telling you now of my state
Então você que está ouvindo essas palavras que falam sobre o meu estado
I tell you to enjoy life I wish I could but it's too late
Eu digo para você curtir a vida, eu queria, eu poderia, mas é muito tarde.






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