terça-feira, 5 de setembro de 2017

Elvis Presley - A Caixa Vermelha de Elvis.



Porque nossa conversa começava depois que todos estavam dormindo, não tínhamos sonhos, só insônias e, eram as melhores insônias de todos os tempos. Eu me lembro que ia trabalhar no dia seguinte cansado, bebia café como se fosse água, dormia em pé porém feliz. 

Felicidade transparece até mesmo com olheiras gigantescas, não produzia como devia e o chefe que era um grande amigo percebia o meu sono, o meu cansaço mas, acima de tudo testemunhava minha felicidade e, dizia sempre “Vai lavar o rosto no banheiro eu termino isso pra você”.

Um dia eu estava tão bêbado que em plena madrugada, de uma insônia solitária pois, havíamos desentendidos um dia antes, eu levantei da cama e pichei o nome dela no muro da minha própria casa, voltei para cama, a insônia continuou a me perturbar, iriam descobrir que fui eu mesmo que escrevi. Eu, levantei novamente e, fui para o quartinho das ferramentas, misturei algumas tintas e peguei a brocha e, em plena madrugada fria de inverno comecei a pintar o muro inteiro, o guarda noturno em sua bicicleta me cumprimentou assustado depois, soletrou o nome dela muro:

_E-V-E-L-Y-N

Certa vez eu presenciei ela com o marido de mãos dadas conversando e sorrindo, ela parecia bem feliz, comecei a segui-los numa distância bastante segura, ele entrou no Banco e ela ficou do lado de fora. Resolvi ligar para celular dela e, no momento que ela olhou para o celular percebi mesmo que de longe seu nervosismo.

_Alô? Sua voz estava tensa.
_Oi Evelyn – Tentei disfarçar minha decepção, continuei:_ Onde você está?
_Estou trabalhando.
_Trabalhando? Hoje não é seu dia de folga?
_É, mas me chamaram para trabalhar – Avistei o seu marido saindo do banco:_ Tchau vou ter que desligar agora.

Nem deu tempo de responder o tchau apenas, testemunhei o seu marido tentando pegar o celular da mão dela, ela recuou, discutiram e voltaram a caminhar novamente sem as mãos dadas, sem conversas e sem sorrisos.
Nesse dia fui trabalhar nervoso, não conseguia concentrar no que estava fazendo, errei a medida de um material que era exportação urgente e, jamais tinha testemunhado meu chefe tão nervoso comigo:

_Porra cara, assim você me fode. Cacete. O que está acontecendo com você? Assim não dá...
Sai da fábrica totalmente pirado, pensamentos inconclusivos, respiração ofegante, velocidade máxima.

“O que está acontecendo com você?”

Cheguei em casa com uma vontade louca de fazer sexo e, quando eu toquei em minha esposa as palavras rotineiras:

_Sai pra lá. Eu tô dormindo, tenho que levantar amanhã cedo – Ela sempre dizia isso mas, aquele dia eu estava totalmente fora de si, fizemos sexo de forma tão selvagem que, com certeza não foi amor. Ela se levantou da cama ainda nua, enquanto eu acendia o cigarro. Indagou-me:
_Você está bem, mor?
_Estou. Por que não estaria?
_Pois, você errou meu nome duas vezes antes de ejacular.

Minha esposa me beijou toda feliz que, nem me questionou sobre o nome e, eu que fiquei curioso pra saber que nome eu tinha sussurrado, tudo indicava que era Evelyn, pois Evelyn estava em tudo e em todos lugares, com sorrisos e olhares ela foi penetrando em minha vida, até lugares que eu achava seguros, por exemplo o meu casamento:
De repente eu comecei achar que o meu casamento já era tão seguro assim pois, Evelyn fazia coisas diferentes, me escutava e interessava também sobre meus gostos e, quando eu tocava em Evelyn ela não tinha dor de cabeça, não tinha de acordar cedo. Na verdade, não foi o jeito de fazer sexo de Evelyn que afundou meu casamento. O que afundou meu casamento foi jeito que Evelyn me dava atenção. Mas, ainda sim, o que me tirava do sério era só de pensar o jeito que ela fazia sexo comigo, ela poderia fazer do mesmo jeito com o marido dela e, fazer sexo com o marido dela pra mim já era uma traição e, algumas vezes eu teclava na madrugada com ela:

_Você fez sexo com seu marido?
_Fiz, afinal ele ainda é meu marido.
_Mas, você fez da mesma maneira que você faz comigo?
_Da mesma maneira mas, com outros sentimentos.
_Não acredito, é traição Evelyn.
_Não é traição. Traição é que nós fazemos.
_Mas, da mesma maneira é traição da traição.
_Desencana, você faz sexo também com sua esposa, não faz?
_Mas, é diferente ela é minha esposa.
_E ele é meu marido.

Alguns dias depois encontrei o marido dela num bar no centro da cidade. Ele não me conhecia, talvez nem tinha ouvido falar o meu nome, ele estava sozinho no canto do balcão tomando cerveja, fiquei do lado oposto, encarando-o, estava bem vestido, barba feita, parecia um gerente de banco. O que Evelyn viu em mim eu não sei, barbudo, uma camiseta surrada do Ramones, calça jeans com mais de três anos de uso, carro popular de 2008 e com dinheiro contado para três cervejas.



 Meu Deus, acho que observei demais, ele acenou pra mim, disfarcei olhando para trás, fazendo de conta que não era pra mim, não adiantou ele insistiu me chamando com gestos. E, se ele soubesse de alguma coisa? Fiz aula de judô durante um mês quando tinha oito de idade talvez, agora com quarenta e dois anos, eu tivesse que colocar em pratica todo ensinamento do mestre Gerson, falecido Gerson. Lembrei das aulas de catecismo também, das orações que a catequista Delma ensinava.
A cada passo que eu dava na direção dele do outro lado balcão, embaralhava Ave Maria com Pai Nosso porém, sempre acabava num amém.
Nem bem aproximei-se dele, já foi esticando os braços e sorrindo em minha direção.

_Prazer meu nome é Carlos, eu vi você ali sozinho e, eu estou afim de conversar com alguém, logo vi a camiseta do Ramones. Sei lá, achei que poderia desenvolver um bom papo.
Evelyn nunca tinha falado o gosto musical de Carlos aliás, o gosto musical de Evelyn era horrível no meu conceito, o mais perto do Rock que ela ouvia era o Kid Abelha, uma noite depois que fizemos sexo apressado dentro do carro ela começou a cantar uma música da Ivete Sangalo:

_Pegou me deu um laço, Dançou bem no compasso, De prazer levantou poeira. Poeira Poeira Poeira Levantou poeira!

_Que isso Evelyn?
_Tô feliz ora bolas!!! Quando você está feliz você não canta?
_Canto mas, não Ivete Sangalo.
_Que música você canta então?
Então eu comecei:
_I don’t have to sell my soul
He’s already in me
I don’t need to sell my soul
He’s already in me

I wanna be adored
I wanna be adored

_Que música é essa?
­_The Stones Roses “I wanna Be adored”.
_Nunca ouvi falar mais grava pra mim, eu com certeza vou adorar.


Foi assim que aos poucos fui mudando o gosto musical de Evelyn, até chegar uma noite com mesma pressa, no mesmo carro, fizemos sexo. Evelyn colocou a calcinha vagarosamente e começou a cantar:

_I Wanna Be adored. I wanna Be adored.

Conversei com Carlos o marido de Evelyn por mais de três horas, lógico que ele nem suspeitava que eu saia com sua esposa e, nenhum momento ele falou da sua vida pessoal, rimos muito falando de nossa adolescência, descobri que ele era fanático pelo Elvis Presley que, até arriscou no auge da bebedeira “Suspicious Mind”, fazendo do copo que ele tomava cerveja um microfone improvisado, e pelo grau da bebedeira eu cheguei imaginar que estava perto do Elvis de verdade até ouvir o barulho de descarga, um senhorzinho calvo acabava de sair do banheiro.


Teve um hora que eu fiquei preocupado com o numero cervejas que tínhamos bebido, eu tinha dinheiro apenas para três porém, Carlos me abraçava e dizia “Meu, eu precisava de um cara assim pra conversar, eu tenho pouca fé no entanto, tenho certeza que foi Deus que te enviou aqui”. Lógico que, por mais bebida que eu tivesse ingerido, eu estava bem mais lucido do que Carlos, tinha plena consciência que Deus jamais enviaria o amante da sua esposa em bar cheio de cervejas.
No caminho de volta para a casa eu estava sentindo uma coisa estranha, o pôr do sol, o ipê amarelo florido, os pedintes nas esquinas, tudo tinha um pouco de melancolia para os meus olhos. As pessoas estavam tristes e cansadas dependuradas nos ônibus, o guarda de transito gesticulava com rapidez porém, seus olhos estavam vazios, nas esquinas jovens bonitos todos tragando cigarros de maconha, um cachorro magricelo e sarnento revirava o lixo procurando alimento.


Na minha mente Carlos, o legal, o sorridente, conhecedor de livros, de filmes, de política, muito mais inteligente do que eu. Comecei a andar vagarosamente na cidade, reparar detalhes que sempre passaram sem jamais chamar minha atenção, pardais nos telhados das casas, o badalar dos sinos na igreja, esculturas que jamais tinha visto no alto do Museu.
Eu me senti tão mal que vomitei numa lixeira, pensei até que ia morrer, o vomito saia até pelo nariz. Comecei enxergar naquele momento uma Evelyn diferente de todas Evelyn (s) existentes, até a lua que já fazia presente era diferente de todas as luas que eu e Evelyn passamos juntos e abraçados observando. Ela não estava tão brilhante, pensei algumas vezes que ela ia se apagar, não apagou-se no entanto, sumiu-se por alguns demorados minutos, uma nuvem carregada ofuscou seu brilho.

De repente comecei a desconfiar de todas as mulheres que eu encontrava na Rua, imaginando que estivesse saindo de algum motel, que tivesse acabado de copular com outra pessoa. Mulheres apressadas, outras nem tanto, algumas arrumavam os cabelos, outras reforçavam a camada frugal do batom, sérias, felizes, bonitas e feias. Uma loira que vinha na minha direção toda fogosa me chamou de “tarado” e, eu com todo pensamentos girando em minha cabeça respondi chamando-a de piranha.
Cheguei em casa e Ana Paula minha esposa estava toda arrumada, perfumada, batom vermelho, salto alto.

_Ainda bem que você chegou, esqueceu que eu falei que ia no Shopping trocar o vestindo que ganhei de aniversário.
Aproximou-se:
 _Nossa que cheiro horrível “mor” pelo jeito você bebeu mais do que devia.

Todas aquelas imagens das mulheres arrumando os cabelos, reforçando a camada frugal do batom, das sérias, das felizes, das bonitas e das feias vieram novamente em meus pensamentos.

_Você não vai no Shopping? Eu sei aonde você vai sua vadia – Falei com tanto ódio.

Ana Paula se assustou com tamanha braveza das minhas palavras.

_Que isso amor? “Cê” tá bem?
_É vadia mesmo, é igual Evelyn e todas que estão na rua nesse momento.
_”Mor” quem é Evelyn? Foi de Evelyn que você me chamou aquele dia.
_ O que importa agora quem é Evelyn? São todas vadias.


Nunca mais vi Ana Paula, nunca mais vi Evelyn, nunca mais vi mais ninguém. Fiquei sozinho em casa durante meses ouvindo todos os dias uma caixa com cinco álbuns (vinil) que tinha como preciosidade do Elvis Presley.

domingo, 20 de agosto de 2017

Raul Seixas - Krig Ha Bandolo


No bar um senhorzinho com os cabelos grisalhos, o rosto sulcado, as unhas sujas e carcomidas, as roupas com respingos de tintas, um pintor de construção de civil eu deduzi. Sorria descontraidamente, dois copos de cachaça goela abaixo depois, dezenas de caretas. Pede o violão pro dono do bar, só então reparei que sua unha do dedo anelar estava roxa, certamente uma martelada errada que custará daqui uns dias a perda da unha. Nos primeiros acordes ele logo percebeu que o violão precisava de afinação e, quando ele afinava vislumbrei o local aonde eu me encontrava, só pessoas que deram erradas na vida. Na extensão do balcão homens cabisbaixos, banguelas, com tiques pavorosos como mexer as sobrancelhas sem parar ou movimentar o ombro pra cima repetidamente, tinha uma moça que ficava girando um molho de chaves sem parar, um pedinte querendo salgado e uma mulher com shorts curto com cara de periquito que, piscava seus olhos pra todos os homens que estavam ali, ela piscou pra mim também. É, na verdade eu fazia parte das pessoas naquela extensão do balcão, pessoas que deram errado na vida.  Alcoólatras, assassinos, prostitutas, desempregados, desamados, bipolares, enfim... O senhor de cabelo grisalho começou a cantar:



Eu prefiro ser

Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo


Aconteceu uma coisa estranha naquele momento, houve um silencio na plateia de pessoas que deram errado na vida, testemunhei lágrimas que escorriam dos olhos dos desdentados, das prostitutas e dos assassinos, lágrimas silenciosas e preguiçosas, alguns tentavam disfarçar olhando para o teto, outros que pediam pra garçonete mais uma dose de alguma bebida mais forte. Eu fiquei perdido ali em pensamentos, absorto, infeliz, incapaz de me mover, até pedi pra Deus que convertesse toda aquela minha tristeza, toda aquela mágoa que tomava posse do meu corpo em lágrima porém, Deus que foi capaz de transformar a água em vinho não conseguiu transformar minha mágoa em lágrimas.

Alguns dias depois, eu caminhava pelo centro da cidade de Pindamonhangaba, confesso que já havia ingerido bebida alcoólica suficiente que, a cada passo que eu dava tudo ao redor tremia: os carros, transeuntes, arvores, monumentos históricos e até cachorro que fuçava o lixo. No meu pensamento Franciele, metade da minha idade e metade do meu conhecimento. Não lia, não interessava por cinema, não torcia para o Corinthians, nunca ouviu falar do Nirvana porém, tinha um corpo acima da média.



Tomei coragem e convidei-a para ir barzinho que tocava bandas covers de rock, achei que ela poderia gostar do Guns n Roses. Quem não gosta de Guns N Roses? Pra ser sincero eu não gosto porém, a maioria das pessoas que eu conheço gostam. Franciele gostou da cerveja e da pizza. Enfim, não gostou da banda, reclamou várias vezes do barulho da guitarra e da bateria, achou o vocalista desafinado e gordo. Eu que não gosto do Guns no entanto, queria ficar até o fim da apresentação. Ela não, queria ir embora de todo jeito e, quando levantou-se, deixando à mostra aquele piercing no umbigo me convenceu de ir embora.

_Vou levar você num rolêzinho, só pra você ver o que é diversão.

Bem, depois de tanta insistência de Franciele aceitei o convite para um rolezinho, o lugar era conhecido como Praça da Bíblia, muita gente, a praça lotada. Talvez, eu demorei um pouco para perceber que estava no meio de crianças de quatorze e dezesseis anos de idade a grande maioria, crianças chapadas de bebidas alcoólicas, chapadas de maconha, meninas com roupas curtíssimas dançando ou sei lá, insinuando. Carros, muitos carros com sons potentes, a música funk com letras de apelos sexuais, Franciele rebolava na minha frente com metade da bunda pra fora.



_Cê tá gostando amor?

No momento que Franciele me fez está pergunta veio em minha cabeça o meu escritor favorito, o depravado Henry Miller que, sua trilogia Sexus, Plexus e Nexus, tornava-se tão pequena e inocente diante que meus olhos testemunhavam ali. A bunda Franciele era linda, parecia um coração de tão perfeita que era. Porém, naquele dia eu fiquei tão perplexo com todo aquele movimento que, a bunda de Franciele nada mais era que uma bunda dançante descontrolada no meio daquele alvoroço de bundas descontroladas.

Longe daquele tumulto eu avistei viaturas da polícia estacionando próximo ao local, com cassetetes nas mãos, começaram a correr em nossa direção. Franciele me puxou pelos braços:

_Corra a polícia – Gritou ela.

Comecei a correr sem saber o porquê? A corrida me fez sentir uma adrenalina incrível, de certa forma me fez voltar a minha adolescência quando eu corria do terrível Manuel, o dono de um sitio, onde eu meus amigos íamos furtar laranjas, o terrível Manuel saia com uma espingarda de chumbinho feito louco atrás da gente mas, tínhamos quatorze, quinze anos de idade com um folego e energia incrível.
Muito bem lembrado, eu já não tinha quatorze anos de idade e o folego já não era o mesmo, não conseguia acompanhar Franciele naquela corrida louca, foi quando a pancada de cassetete na minha nuca me fez cair, Franciele ria com seus amigos daquela aventura que pra mim tinha acabado.

Ouvi o policial falando todo eufórico para o seu superior:

_Pegamos o traficante, Senhor.

Enquanto veio outro policial e com os seu coturno me deu chute na minha barriga que, perdi quase por completo a respiração, levantaram me com brutalidade e me questionando:

_Cadê as drogas, hein?

_Senhor, eu sou trabalhador – Disse isto com muita dificuldade.

Foi explosão de risos dos policias.

_Sargento o indivíduo aqui falou que é trabalhador – E continuaram rindo, foi então que o sargento aproximou-se, eu cabisbaixo com uma dor enorme na barriga, não tinha coragem de olhar para Sargento, tinha medo de levar uma bofetada no rosto. Percebi que ele ficou parado na minha frente e então, resolvi lentamente olhar em sua direção.

_Nossa! Era mesmo quem estava pensando. Que você está fazendo aqui, rapaz?

O sargento da polícia era um velho amigo, servimos o serviço militar junto e continuou:

_Aqui não é lugar pra você, nem combina contigo. Vai dizer que está ouvindo funk agora?

Nem esperou qualquer explicação minha, olhou para os seus comandados e disse:

_Ele está liberado, não é o traficante.

Quando os policiais foram embora me deixando ali, as dores na barriga aumentaram consideravelmente, minha sorte que a Praça da Bíblia é próximo do Pronto Socorro, e, com muita dificuldade consegui chegar lá. A dor era tanta que comecei a gemer sentando, a demora para passar na triagem aumentava o meu desespero, uma mulher do meu lado tirou o celular da bolsa e começou a me filmar. Questionei:

_Moça, você está filmando moça, sério isso?

_Vou enviar para o Facebook, na página Pinda Cidadã. A culpa é do prefeito – e conferindo a gravação complementou: Nossa vou receber muitas curtidas. Valeu moço!

Dizendo isto foi embora.

Passei pela triagem e fui atendido pelo médico, já era quase vinte três horas. O médico parecia mais preocupado com o seu celular:

_Então, o que vc está sentindo? – indagou o médico olhando de soslaio para minha direção mas, preocupado mesmo com o celular.

_Estou com uma dor terrível na barriga – e o médico me interrompeu, largando o celular e pegando a caneta para fazer a receita de medicamentos.

_Já sei, é virose, você é o quarto paciente que vem aqui com os mesmos sintomas.

E foi logo escrevendo a receita.

_Doutor, eu levei um chute na barriga de um policial.

Não sei ao certo o que médico pensou mas, ficou amedrontado, talvez pensando que eu fosse um bandido de alta periculosidade, abriu a gaveta apressadamente e me deu alguns remédios de amostras grátis para dor e infecção, só não tirou raio x pois, o aparelho do Pronto Socorro estava quebrado.

Noutro dia acordei cedo com um pouco dor na barriga ainda apesar, do remédio que havia tomado antes de dormir para aliviar a dor. Queria tirar foto, tinha necessidade de sair para ruas clicando tudo que meus olhos testemunhassem pela frente, fotografia pra mim tinha transformado como válvula de escape, jamais pensei em ganhar dinheiro com fotografia, eu só queria que minha fotografia retratasse o que eu estava sentindo, que se fosse dor, rancor ou mágoa que transmitisse da forma mais bonita possível.

Foi nesse dia que eu reencontrei o senhorzinho de cabelos grisalhos que tocava violão no barzinho e, se não fosse a música do Raul Seixas acho que passaria direto sem perceber que ele estava ali sentando,encostado num monumento da praça, acho que é uma águia que tem na Praça Monsenhor Marcondes. Bem, a música era “Rockixe”:



Você é forte, faz o que deseja e quer

Mas se assusta com o que eu faço, isso eu já posso ver
E foi com isso justamente que eu vi
Maravilhoso, eu aprendi que eu sou mais forte que você.


Sentei do seu lado como se a música do Raul Seixas me atraísse como imã, ele estava com radio pequeno e antigo com um toca fita que naquele que momentos depois começou tocar “Cachorro Urubu”, num coro desafinado comecei a cantar com ele:





Todo jornal que eu leio

Me diz que a gente já era
Que já não é mais primavera
Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou


Perguntei:

_Você se lembra de mim?

O senhorzinho me encarou por alguns segundos.
_Lógico que me lembro, você era o cara que estava no bar alguns dias atrás, estava perdido, com olhos tristes, pensativo. Você é o cara das fotos, certo?

E antes que eu pudesse responder ele continuou:

_Amo suas fotos apesar, de ver algo gritante nas entrelinhas.



Eu disse:

_Você gosta do Raul, hein?

_Kri-ha, Bandolo é o álbum da minha vida.




Ficamos em silencio quando tocava Ouro de Tolo, reparei que tinha um taxista que olhava a todo momento para nossa direção, os pombos também já faziam presentes na praça, azaleias floridas com visitas de alguns beija-flores. O taxista aproximou e disse com olhar triste para o senhorzinho de cabelo grisalho:

_Você perdeu sua bicicleta.

_Como assim?

_Aquele homem que pegou sua bike, não volta mais.

_Como você sabe?

_Olha, acabaram de postar a foto dele na página Pinda Cidadã “ladrão de bicicleta”. Daí, eu pensei “Porra esse cara estava quase agora aqui”.

O senhorzinho levantou desorientado:
_Filha da Puta – Caminhou até o ponto de taxi, olhou demoradamente para direita, coçou a cabeça com as duas mãos, voltou-se vagarosamente e, sentou-se ao meu lado, aumentou o volume do som e disse olhando pra mim:- Não acredito e, seu falar pra você, você também não irá acreditar.

Quando a fita terminou, ficou um tempo rebobinando a fita do seu radio, quando terminou apertou o play e a voz de Raulzito novamente se fez presente:

_Minha Bicicleta nem é tão nova assim, o valor é mais sentimental foi presente de aniversário de minha filha – Tentou espantar os pombos que se aproximavam mexendo os braços num vai e vem.

_Desgraçado – Continuou:- Foram três dias de lábias pra conseguir minha bicicleta, você acredita nisso?

_Como assim? Questionei.

_Há dois dias atrás estava eu aqui logo de amanhã, ouvindo o meu Raul Seixas como sempre faço quase todos os dias e, esse indivíduo aproximou-se bem apessoado, com linguajar diferenciado, reparou minhas calças sujas de tintas e não titubeou foi logo perguntando

“Você trabalha em construção civil?”. Eu respondi que era pintor então, ele me falou que trabalhava em sociedade com um amigo, que era mestre obra e, iria pegar uma obra grande e que precisaria de pintor. No dia seguinte ele voltou aqui de manhã falando que tudo estava certo, falou o quanto eu ganharia por dia que, me pegava ali mesmo na Praça, colocaria a bicicleta em cima da caminhonete do seu sócio e, iriamos até local, que eu não precisaria levar almoço e café, a firma forneceria tudo. Acreditei piamente no que ele dizia.

Riu olhando para direção do último beija-flor que restava na bela azaleia florida e continuou:

_Eu compareci aqui hoje, bem antes do horário combinado, precisando de serviço e com o aluguel atrasado. Ele apareceu sorridente vestido como um grande empresário. Cumprimentou com um abraço demorado, perfume forte, pensei, deve ser caro, bem diferente do desodorante que eu uso e, quando uso. Olhou para o relógio e, foi logo dizendo: “Estamos com um pequeno probleminha aqui, meu celular ficou no Centro comercial e, eu estou sem contato com o meu sócio. No entanto, o rapaz do centro comercial que arruma celular abriu uma exceção para mim, disse que poderia pegar o celular agora de manhã. Você não emprestaria sua bicicleta só pra mim pegar o celular ali, é rapidinho.”  
Porra como eu ia desconfiar de um cara bem apessoado iria roubar uma bicicleta seminova. Meu Deus o que está acontecendo com mundo?



Sai dali triste com toda aquela historia foi quando Franciele me ligou:
_E ai, o que rolou com a policia?

Olhei para os pombos, para azaleias floridas da praça e desliguei o celular sem ao menos dizer alô.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Legião Urbana - A Tempestade ou O Livro Dos Dias (Recapitulando)


Legião Urbana

A Tempestade ou Livro dos Dias da Legião Urbana era o álbum preferido de Cristina. Na verdade Cristina adorava a discografia inteira dos caras, não posso afirmar que Cristina era fã mais fanática pela banda pois, tratando-se da Legião Urbana que, pra  muitos é uma Religião...
... Renato é nome do meu filho mais velho e Eduardo do caçula. Tudo na vida de Cristina tinha um pouquinho da Legião.
Se o dia estivesse ensolarado lá estava Cristina cantarolando:
Quando o sol bater na janela do seu quarto...”.
Se o céu estivesse nublado:
Corre, corre, corre. Que vai chover. Olha a chuva!”.

Eu conheci a Legião Urbana desde do seu primeiro sucesso radiofônico “Será” em 1985. No entanto a Legião estava apenas engatinhando no que ficou conhecido como Rock Tupiniquim pois, naquele ano o cenário era dominado pelo Ultraje a Rigor (Lp : Nós vamos invadir sua Praia), Kid Abelha  e os Abobaras Selvagens (Lp: Seu Espião), Paralamas do Sucesso (Passa do Lui) e etc...
Foi uma época muito produtiva no Rock Nacional, talvez pela própria situação política o jovem tinha muito o que falar e acabava expressando através da musica, do Rock Tupiniquim.

Ultraje a Rigor




A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
Que nóis é indigente...

Conheci a Legião Urbana antes do Joy Division e do Morrissey por isso convivi com a certeza por alguns anos que o Renato Russo era o cara mais autentico do Rock.
Não importa. Alias pra Cristina isto nunca importou. Ela sempre me questionava.
_Quais de suas bandas favoritas hoje em dia que são autenticas?
Devido a minha demora Cristina insistia.
_Qual?
_ The Prodigy.
_Que The Prodigy que nada. Você nem gosta disso.


Enfim...

Fui eu que presenteei Cristina no seu aniversário com álbum “Tempestade”. Na verdade era uma compra indireta pra mim mesmo, pois naquela época ela nem conhecia a Legião Urbana direito. Conhecia o que tocava na radio. Alias Cristina fez o caminho inverso, começou pelo o ultimo. Para ela o Renato Russo ou a Legião Urbana (às vezes acho que o Renato Russo era a Legião Urbana) fosse o personagem do  filme "O Curioso Caso de Benjamin Button”.

_ Eu posso não ser a fã numero um da Legião Urbana mas, talvez seja a única que conheceu a Legião desta maneira. 
_Que maneira?
_Do fim ao começo.

Eu sempre achei que morreria antes de Cristina pelo simples fato de ser o homem, de beber, de fumar, de dormir pouco. Quantas e quantas vezes eu pensei na morte e, tantas e tantas vezes eu cheguei bem perto. Cristina amava a vida, amava seus filhos, me amava.

Eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender
Eu sei porque você fugiu
Mas não consigo entender

A casa está vazia Cristina se foi, as crianças vivem nas casas dos avós, o jardim que era a paixão de Cristina hoje é um matagal enorme.
As vezes penso que Deus foi desonesto comigo

Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar
Meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre a meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomasse como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

The Antlers - Burst Apart (Recapitulando)



Domingo é o dia que ouço todos os álbuns que eu baixo durante a semana. E, este domingo a minha expectativa maior é sem duvida The Antlers – Burst Apart. Li coisas boas e interessantes sobre este lançamento. Vamos lá.

I don’t want love”. 
Juro que tinha apertado o play e já estava na direção do banheiro pra fazer a barba porém, 
 Peter Silberman:
 
You want to climb up to stairs”
“Você quer subir as escadas”
“I want to push you right down”
“Eu quero empurrar você para baixo”

The Antlers, realmente mudaram, musicas mais introspectivas, com sutilezas e belos arranjos vocais. Voltei pra sala sem a menos tocar na barba. Acho que este jeito desleixado está “up” outra vez, os integrantes do Band of Horses e Fleet Foxes abusam das barbas enormes.
O refrão me fez lembrar de Fernanda:

I don't want love
Eu não quero amor
“I don't want love
Eu não quero amor

Na semana passada Fernanda havia me questionado sobre Cristina  porém, eu já tinha perdido Cristina muito antes disso:  

http://relatoestrepito.blogspot.com.br/2017/06/wild-beasts-smother.html
  
O silêncio de Cristina me preocupava, a ausência do seu sorriso me deixava sem saber o que fazer, ela já não me ofendia, já não gritava comigo, já não dizia que ia embora pois, estava cansada com esse relacionamento. Juro por deus que preferia quando o seu choro ficava incontrolado, e suas mãos tremulas atiravam pratos e copos na minha direção. Eu me sentia melhor quando ela dizia como estava arrependida de ter casado comigo, que ela merecia algo melhor, que meus filhos mereceriam um pai melhor. Cristina me chamava de bêbado imprestável perto dos meus filhos, dizia que eu era um fumante de merda e que se envergonhava de mim, do meu modo de vestir e da minha barba.

No Window


Tem uma introdução bem manjada, o Garbage já havia feito isto repetidas vezes nos 90. No entanto o vocal do Peter sobressai mais uma vez, numa afinação que parece ser simples e, com arranjo inquestionável acaba cometendo a melhor ou umas das melhores canções do ano.

Cristina estava entregue aos pensamentos secretos, entregue a morbidez em sua pele pálida. Insípida, lânguida e cabisbaixa, sem reflexo algum. Neutra, sem sintomas de melhora ou piora. Cristina já não se importava com a fumaça do meu cigarro ou, se estava embriagado ou não.
Passei a me vestir do jeito que Cristina gostava, combinando cores e sapatos, passei a fazer barba com mais freqüência, parei de fumar no quarto. Tudo isso numa tentativa de tirar Cristina de sua dormência, assobiava alegremente alguma musica que sei que ela gostava, Cristina permanecia cabisbaixa e quase imóvel, as vezes os dedos da sua mão direita se mexiam talvez involuntariamente e desentronizados. Pior que tudo isso, é que Cristina chorava, não um choro compulsivo; o choro de Cristina não existiam lagrimas, não existiam soluços, não existia um motivo aparente. Cristina chorava por dentro, imagino eu, que suas as lagrimas faziam um caminho contrario, deslizavam pelos seus órgãos internos ou de alguma maneira findava-se em sua corrente sanguínea.

Corsicana”.

É outra bela canção. Aos fãs ardorosos de “Hospice” uma grande decepção, talvez a maior do ano mas, pra quem ta afim de ouvir um dos melhores álbum de 2011 tai a dica.

Cristina só se levantava para os afazeres domestico, ainda assim era uma outra Cristina. Uma Cristina robótica, com movimentos controlados, até mesmo quando provava o tempero da salada, não demonstrava se estava salgado ou faltando sal, talvez o chip de sua língua que detectava o paladar estivesse queimado.
 Cristina preparava a mesa com salada, arroz, feijão, contrafilé e suco artificial de laranja, e, quando todos estavam assentados Cristina começava a rezar sem sentimentos talvez, para um Deus robô.
Quando a noite caia me isolava no fundo do quintal, longe de Cristina e das crianças, abria uma garrafa de vinho e acendia um cigarro. Às vezes o meu silencio expressava tudo o que sentia, as vezes o meu silencio não expressava nada do que eu queria dizer. Eu conheço bem o meu silencio, Cristina conhecia bem o meu silencio. Sabia o que ele significava. Eu não conhecia o silencio de Cristina, eu não sabia o que o silencio de Cristina significava. Confesso que quando Cristina estava triste a casa toda ficava mais triste e, agora com sua ausência, as rachaduras nas paredes tornaram-se maiores, a luz da cozinha tornou-se lúgubre e no corredor transitavam um numero maior de baratas.

Putting the dog to sleep”.

É quase um blues ou é novo blues…
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