sexta-feira, 2 de junho de 2017

Wild Beasts - Smother


A obra-prima do Wild Beasts

Smother

A obra-prima do Wild Beasts

Ultimamente tenho feito sexo com a Fernanda principalmente quando estou embriagado, poucas foram às vezes que eu estava sóbrio. Nossos diálogos são sombrios e sem sentidos, nossos sorrisos são meios sorrisos, existe uma relutância de ambos em abrir os lábios por inteiro; a gargalhada começa e nunca termina, e, os olhos se encontram incrédulos, porém, não desistem da mesma direção, vagarosos e sem brilhos, ofuscados e lacrimejados não importa, Fernanda não importa com nada. Sexo não precisa de amor, não precisa de carinho e nem de preliminares demorados.

Fernanda sempre se levantava antes, se limpava com papel higiênico, sentava no vaso e fazia xixi e, dizia que "tava" tudo ardendo.
Um minuto depois sou era eu que me levantava preguiçosamente. O perfume de Fernanda ficava impregnado em meu corpo a semana inteira. Podia me esfregar com tamanha força e o perfume ficava como se fosse uma cicatriz aberta, o cheiro do perfume de Fernanda me sufocava. Alias tudo em Fernanda me sufocava. Seu dialogo sombrio, seu meio sorriso, sua calcinha oncinha, seu tênis rosa, seu gosto musical, seus filmes favoritos, seus livros de cabeceiras, seus seios grandes e despencados, sua tatuagem de borboleta colorida no ombro direito, brincos, pulseiras e o relógio.
Jamais voltei inteiramente completo para casa depois de fazer sexo com a Fernanda, até mesmo nos melhores dias onde tudo funcionava perfeitamente, não me sentia completo.

Conheci Fernanda dois meses depois do falecimento de minha esposa num boteco afastado do centro da cidade. Madrugada fria com poucas estrelas. Mal acomodado numa cadeira de frente pra rua “EU”, que tinha perdido recentemente minha razão de viver. Do outro lado também mal acomodada na cadeira só que do lado oposto, de costa pra rua "Fernanda" que nunca teve razão nenhuma pra viver segundo ela mesma.

Semana passada ao adentrar naquela espelunca, um quarto de pensão mal iluminado e sujo, antes mesmo de Fernanda tirar mini saia e desfilar com sua calcinha oncinha de um lado para o outro eu disse:
_ Fernanda eu trouxe algo pra gente ouvir.
_O novo da Lady Gaga.
_Melhor...
_Melhor é impossível.

A obra


Lion’s share a primeira musica fez Fernanda parar e acender um cigarro:



_ Profunda._Completou:- E esse “sonsinho” no final é muito louco.
Fernanda deitou-se ao meu lado.
_Esse é o volume Maximo do seu mp3? Gostei dessa musica também. Esse cara canta muito.
Enquanto tocava “Loop the loop”. Fernanda me surpreendeu:
_Sua esposa me fale dela. Como ela era?

Deixei rolar a primeira estrofe “Plaything”.




New squeeze, take off your chemise
And I'll do as I please
I know, I'm not any kind of heart-throb
But at the same time, I'm not any sort of sloth

_Minha esposa era linda.

_Nossa isso é muito vago. O dia em que ela morreu me conta.

_Sabe Fernanda, eu nunca comentei isso com ninguém...

_Então me conta???

“Invisible”.
_Nossa essa música me fez lembrar Peter Gabriel. Essa banda qual é o mesmo o nome dela?
_Wild Beasts
_Isso... Tem alguma influência do Peter?
_Não.
_Deixa pra lá. Agora me fale da sua esposa...




_Foi num entardecer de uma quinta-feira de um junho gélido e com fortes rajadas de vento que Cristina morreu. Recebi friamente a noticia pelo telefone do medico de plantão e, friamente me locomovi para o hospital. Cristina estava com câncer em fase terminal.
 Nenhuma lagrima rolou no meu rosto provido de uma barba espessa. Naquele itinerário sombrio que decidi fazer sozinho. Parei num pequeno boteco no meado do caminho. Tomei uma cerveja e comprei uma carteira de cigarros. Cheguei a conversar com o dono do boteco coisas banais com a mudança repentina do tempo, e, acendi um cigarro, estava estranhamente calmo, não estava triste como deveria. Certamente muitas pessoas já tinham chegado ao hospital em estado de choque, dando murros nas paredes ou chorando copiosamente.
 Quinta feira era um péssimo dia para morrer, pensei nisso antes de pagar a conta.

_Nossa que sombrio!
_O nome dessa música é “Albatross”
_Não. Estou falando do que voce me contou.



_Comprei um carro com o dinheiro do seguro de vida de Cristina. Engraçado. Cristina sempre quis um carro e eu, sempre relutei com a ideia de possuir, alegando que um carro aumentaria muito as nossas despesas e, com o salário que eu recebia era inviável. Diante da minha recusa Cristina sempre afastava tristonha e com os olhos lacrimosos. No entanto Cristina sempre voltava pensativa e com planos mirabolantes de economia, sempre com a ideia fixa de arranjar um emprego, fazia dezenas de currículos e dezenas de listas de regulamentos que deveríamos seguir para economizar. Nessas listas era tudo especificados desde da quantidade de pãezinhos de sal que deveríamos comer no café da manha até o horário do banho. As vezes fico imaginar quanto tempo Cristina gastava fazendo isto, quanto rascunhos ela teria atirado no lixo por esquecer de algum item e, tantos empregos recusou por causa dos filhos. A ideia de deixar os filhos na companhia de uma outra pessoa estranha era um grande empecilho para Cristina, talvez o maior de todos ou, o único empecilho.

_Isso é muito tenso.
_A música?
_A música também.

“_Burning.” É a minha favorita e, talvez você tenha razão, Peter Gabriel ... Meus amigos vão odiar essa comparação.



_Quinta-feira é péssimo dia para morrer. Você concorda comigo Fernanda?
Silêncio.
_Fernanda? Fernanda? Dormiu...

The end it comes too soon, too soon, too soon, too soon
The end it came too soon

Texto escrito sábado, 14 de maio de 2011

quinta-feira, 25 de maio de 2017

First Aid Kit - The Lion's Roar

First Aid Kit - The Lion's Roar



Acabei de assistir pela a Televisão o Show do Band of Horses  no Festival Lollapalooza, é a primeira vez que acontece esse Festival idealizado Perry Farrel aqui no Brasil.

 Entre esperar a apresentação do Foo Figthers e dar role pelo centro da cidade, optei pela segunda opção.
Chave, carteira, celular e fone de ouvido. Meu kit de sobrevivência para qualquer andança. Fecho a porta, o portão, há vizinhos e crianças na calçada, é curioso o jeito que eles me olham como se eu fosse de um outro mundo, sorrio descontraído para eles que me retribuem porém, uns quatros passos adiante consigo ouvir cochichos maldosos sobre a minha pessoa. Deixa pra lá, eu não me importo.

Primeira parada a Padaria que mais parece um boteco, bêbados caídos no chão, outros te pedindo um real e outros que só querem pegar a sua mão. Uma lata cerveja e uma indecisão. Pra onde ir no centro?

Sei lá... Os melhores clubes e bares estão apinhados de jovens com a idade do meu filho mais velho que acham Foster the People a melhor banda do mundo e, você corre risco ainda da garota mais bonita te chamar de tiozão.

Ajeito o fone no ouvido “First Aid Kid” The Lions Roar. Lembro-me dessas duas adolescentes do Youtube fazendo cover do Fleet Foxes:


Sei lá, quando o nome de uma musica é nome do álbum sobrecarrega a musica de uma responsabilidade incrível,  como que ela (musica) fosse o resumo do álbum em si.



No ônibus rumo ao centro na cidade, eu me assento perto da janela, à escuridão da noite é semelhante à escuridão de dentro de mim, há luzes fracas que mal ilumina as ruas, há traficantes, prostituições, há violência e algumas estrelas.


Ponto final, ganho as ruas do centro, cidade dos carrinhos de hambúrguer, dos cachorros abandonados e dos craqueiros. Bar do Chinês apinhado de desiludidos, de mulheres que traem, de empresários falidos, de artistas frustrados, de trombadinhas, gays e lésbicas. Parece que tudo que sociedade não aceita são fregueses assíduos desse bar.


Peço uma cerveja, o Lee dono do estabelecimento  já me conhece, pede gestualmente pra tirar o fone e, num português quase indecifrável ele pergunta "Como estou?", sem se importar como minha resposta “se estou bem ou mal” ele sai rapidamente pra atender outra pessoa, o negocio do Lee é o dinheiro.

Do meu lado esquerdo, perto do banheiro, duas meninas lindas no auge da volúpia se beijam num frenesi doido que meus olhos não conseguem fugir e nem fingir. Outra cerveja, um artista frustrado aproxima de minha mesa e outra vez, sinto-me obrigado a tirar o fone dos ouvidos. Ele me mostra uma xilogravura do The White Stripes... Já vi xilogravura de Raul Seixas, Jesus Cristo, Kurt Cobain e até mesmo do Eddie Vedder... Porém do The White Stripes? Quem iria comprar uma xilogravura do The White Stripes?
Quanto custa? Perguntei.
Estava disposto a pagar cinquenta reais naquela maravilha.
_Tiozão... Paga litrão de Skol já era.
(Detesto que me chama de tiozão).


O banheiro masculino do Bar do Lee é imundo. Baratas e o cheiro forte de urina sempre muda minha rota para banheiro feminino.
Porra!!! Duas meninas nuas atracadas no banheiro...

Talvez nessa delonga eu tenha apertado o repeat quatro ou cinco vezes nesse maravilhoso álbum “The Lions Roar”.

De volta para casa de ônibus eu me assento perto da janela, à escuridão da noite é semelhante à escuridão de dentro de mim, há luzes fracas que mal iluminam as ruas, há traficantes, prostituições, há violência e algumas estrelas...



quinta-feira, 18 de maio de 2017

Projeto Mall Star


Olha o Professor de filosofia com sua barba enorme, a noite passada ele quase morreu eletrocutado no chuveiro, suas ideias esquerdistas e um olhar profundo de uma esperança marxista. Antes meia dúzia de pessoas cultuava suas ideias porém, o movimento cresceu e, tem gente grande querendo sua cabeça. Espiões disfarçado em guardadores de carros, vendedores ambulantes, mendigos iletrados, viciados em craques, banguelas e um homem que filma o movimento atrás do poste.

Ele está sendo bem vigiado mas, é cercado por grandes intelectuais, é blindado por bandidos de alta periculosidade, por seguidores fiéis de suas doutrinas. Há pessoas infiltradas na política e na polícia ao seu favor que, em noites impares trazem informações valiosas antecipando os passos de uma possível emboscada. Ele é ligeiro e articulador, pichador profissional dos monumentos da cidade, o que ainda lhe causa uma adrenalina infanto juvenil. No entanto, quando fica só em sua grande casa de aluguel, faz poesia sobre lua, sobre a chuva e sobre o pôr do sol. Lágrimas irrompem dos seus olhos quando saudade da sua ex invadem seus pensamentos... Ali no quarto com a cama ainda com dois travesseiros, com bichos de pelúcias, seus ideais marxistas, esquerdistas e o caralho aquático não fazem diferença nenhuma... E se algum espião banguela pudesse lhe ver assim diria ao seus superiores:

“_É um frouxo sentimentalista.”

Ligou o aparelho de som e, escolheu ainda com o controle na mão um arquivo musical do Projeto promissor denominado MALL STAR.


Foi para cozinha, abriu a geladeira apossou de uma cerveja, o celular vibrou em seu bolso, verificou, era uma chamada de um policial ao seu favor. Enxugou as lágrimas, abaixou o volume do som, tentou recompor a voz:
_Alô?
_Tudo Limpo – Respondeu a voz do policial do outro lado da linha.

Aumentou novamente o volume do aparelho de som.

Voltou para o quarto pegou o travesseiro que minutos antes estava abraçado, jogou álcool e acendeu a chama do isqueiro, rapidamente o fogo se alastrou. “Tudo limpo” a voz do policial ficou ressoando em sua cabeça. Passou e repassou a mão em sua enorme barba. Logo mais, antes do sol nascer, queimaria pneus na avenida principal nos dois sentidos. .

Compareceu na avenida como havia combinado com seus discípulos, cumprimentados e abraçados por todos ali, em compensação sua cabeça estava em prêmio, se um daqueles discípulos fraquejasse como Judas fraquejou era o fim. Adentrou em seu carro popular e, só acelerou quando testemunhou as chamas altas dos pneus, lembrou-se das chamas do travesseiro algumas horas atrás, “o fogo era algo libertador”.

Professor de filosofia adorado pelos alunos e odiados pelos professores, mal sabia ele que até na escola era vigiado pela dona da cantina que, o seguia no seu Instagram, Facebook e Twitter, com seu olhar verde esmeralda, aliás, seu olhar que pouco destacava em seu rosto rechonchudo, uma enorme verruga sim, ganhava um grande destaque nascia e morria na ponta do seu nariz. Tratava o professor de filosofia sempre com uma falsa simpatia, ria mais do que devia. Suas perguntas coletoras de informações quase nunca funcionavam, apesar da insistência. Seu vocabulário era pobre e pouco atrativo, suas informações via whatsapp não impressionava até os seus superiores. No entanto, o professor de filosofia já havia sido informado por um aluno (discípulo) sobre as intenções dela e pra quem ela trabalhava. 
Quando caminhava pelas ruas da cidade estava sempre precavido, qualquer arrulhar de pombo fazia ele passar apressadamente a mão no coldre da pistola que ficava no cós da sua calça.
 Porém naquele dia, já no aconchego do seu lar ao anoitecer, o professor assistiu os noticiários dos telejornais que, comentavam sobre o fracasso das rodovias interrompidas com os pneus queimados, que o bombeiro e a polícia militar havia agido rapidamente controlado a situação, e, muitos dos manifestantes foram presos.

Apertou o Play no Projeto musical Mall Star, sentou-se na sua cadeira de balanço na grande varanda, viu milhares de estrelas e a grande lua cheia, sentiu o perfume das flores do jardim, testemunhou morcegos velozes sobrevoando em volta das luminárias, avistou o seu cachorro abanando o rabo sem aproximar talvez, percebendo sua seriedade... Assim sozinho a solidão conseguia alcança-lo, desprovidos de bandeiras, de planos mirabolantes, de frases de efeitos e do todo entusiasmo costumeiro. Ele olhava as margaridas do jardim com tamanha sentimentalidade que parecia outra pessoa e, mesmo assim o cachorro não aproximava, o cachorro tem percepção aguçada, ele sabe quando o seu dono não está bem.



Sim, sentia-se triste com o noticiário dizendo que a paralisação foram feitas por vagabundos e, tinha sido um fiasco. Ficou trancafiado o final de semana dentro de sua casa, e, só ficou sabendo da morte violenta da Dona da cantina na segunda de manhã. Procurou pelo o aluno informante e ficou sabendo que ele havia pedindo transferência na sexta feira a tarde.

Os dias de semanas sequentes voaram até chegar o sábado, quando o grupo reunia-se, no caminho o professor não tirava da cabeça o fiasco dos protestos, procurava respostas para conseguir reerguer a chama do grupo. No entanto, ainda que distante ele avistou um aglomerado de pessoas nunca visto antes em uma reunião, mesmo com toda mídia dando ênfase ao fracasso do protesto, o número de pessoas na reunião havia duplicado então começou a cantarolar War. Madilha que não percebeu que havia mais de um homem filmando seus movimentos atrás do poste.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Boogarins - Manual


Ela sentava sempre do meu lado mas preferia olhar o céu de outono naqueles fins de tarde, eu via o reflexo de fogo em seu olhar, seus cabelos castanhos claros também reluziam a mesma luz porém, não havia nenhum sorriso, nenhuma palavra e o silencio prolongava-se. Não havia mais amor, o que havia era o amanhecer, o entardecer e o anoitecer. Não havia mais entusiasmo o que havia era o café, o almoço e a janta. O sexo tornou-se cada vez mais rápido, mais violento e mais gritado.

Quando o sol se escondia atrás da montanha ela se levantava como sempre fazia todos os dias. Aliás, a única coisa que nos aproximava nos últimos meses era o pôr do sol do outono, nos dias nublados ficávamos sentados em frente da televisão. Não tínhamos diálogos e nem filhos, focamos em nossa carreira, ela se deu melhor, ganhava o dobro do que eu.

Devo confessar antes de mais nada que quem traiu fui eu, e, foram várias vezes que cheguei em pensar em separação. No entanto, eu nunca tive coragem em assumir a outra relação. Ela também era casada e curtia Joy Division, o sexo não era rápido, nem violento e ela, apenas sussurrava em meus ouvidos. Não gostava do pôr do sol, detestava outono e as folhas que caiam das arvores.
Quem me apresentou a ela?  Foi a minha própria esposa:

_Está é minha amiga Malú que, trabalha comigo, aquela que te falei que gosta do Joy Division.
Até ai tudo bem, conheço algumas mulheres com idades de 25 anos que gosta do Joy Division, The Cure, The Smiths... No entanto o que chamou a minha atenção era sua camiseta do Boogarins – Manual. Álbum lançado em 2015.

Minha esposa continuou falando porém, eu não estava mais ali, viajando na camiseta que era a reprodução da capa do Álbum, com rabiscos coloridas tentando esconder uma tristeza gigantescas nos traços escuros, com lápis forçado de uma obra que começa com “Truques”.

Ela sorri, seus mamilos pontudos acompanham o ritmo fazendo dos rabiscos de sua camiseta ganharem movimentos, então eu vejo um arco íris numa terra inóspita.
 Acha que eu estou viajando??? Então ouça:




Nos encontramos outra vez no acaso no bar do Queiroz, na grande avenida iluminada, apinhada de jovens correndo com pneus de caminhão nos ombros ou troncos pesadíssimos de arvores, garotas terríveis com musculaturas do Sylvester Stallone, rindo como se o riso fossem rasgar seus rostos banhados de suores.

_Oi – Ela me cumprimentou, estava com a mesma camiseta da semana passada, numa rápida verificada no local descobri que tínhamos amigos em comum, a música que rolava no bar do Queiroz era "Tempo" do Boogarins, tinha certeza absoluta que tinha sido ela a culpada disso. Talvez respondi o seu oi com um balançar de cabeça. Peguei uma cerveja e fui para mesa que ficava na calçada. A letra da música ganhou um significado gigantesco com aquelas musculosas correndo com seus troncos de arvores no ombro:



Vou me libertar
Do tempo dos homens
Só vou te encontrar
Enquanto eles dormem

Não vou me importar
Com o tanto que podem
Pois quero afrouxar
A coleira dos homens

Esqueça das horas
Pois nada demora

Ame e deixe os outros
Pois bando de bicho solto
É bem melhor


_Oi, Eu falei com você lá dentro e, você não me respondeu. Eu sou a Malú, amiga de sua esposa, a gente se viu na semana passada... Não se lembra?
_Oi, tudo bem? Respondi timidamente.

Malu falava mais que a boca, sabia de tudo um pouco, e, conhecia todo mundo.
Até mesmo as meninas musculosas com pneus de caminhão nas costas.

_Cuidado com esse pneu. Linda!!!
_Malu passa amanha em casa, tenho ótimas novidades para você. Disse a menina com o corpo igual do Sylvester Stallone.

Ficamos horas conversando sobre filmes, músicas e livros que, eu esqueci do horário... Ela falou que seu marido era violento,que ele trabalhava em trecho, que ficava quinze ou até vinte dias ausente de casa, andava sempre armado e nervoso. Inúmeras vezes ela presenciou brigas dele no transito, sempre apontando o seu revolver na direção de qualquer um. Achava-se acima da lei e, quando voltava para casa queria fazer sexo com extrema violência, só que ele sofria de ejaculação precoce, um fraco sexualmente, coitado. E isto deixava-o muito frustrado e violento. Ela disse também que fora agredida por ele várias vezes por sua frustração sexual com socos e pontapés. Que ele acordava no meio da noite banhado de suor e assustado, que pegava seu revolver Taurus cinco tiros, duas polegadas, calibre 38 e disparava contra a lua.

No bar do Queiros agora tocava “Mario Andrade / Selvagem” e, ela cantarolou com a voz triste e ao mesmo quase vazia:



Há dias que eu sinto meu corpo frio e oco
Deixo passar
Eu me esqueço o tempo todo e pouco a
Pouco eu sinto outro em meu lugar


Voltei para casa, era noite de outono com seu vento frio arrastando consigo as folhas das arvores secas e sem vidas, as luzes de mercúrio dos postes conseguiam dar um tom mais melancólico aquela cena, não havia transeuntes e nem carros.  O que havia era dezenas de gatos em cima dos muros, nos telhados e nas lixeiras. Gatos Persas, Siameses, Angorás e outros sem raças definidas. Apoiei na vitrine de uma loja. Estava embriagado, enxergava tudo desfocado e ouvia uma música que repetia dentro de minha cabeça.


Percorrer
Distorcer um sonho
Vou viver por viver
Sem dono...

Foi justamente nesse dia que os meus juramentos foram embora, em forma de um vomito interminável, pensei que ia morrer na calçada cercado por angorás, siameses e persas. Eu vi a lua e, tive vontade de atirar em sua direção também. Eu vi algumas estrelas, luzes de mercúrio e mais gatos siameses. Ouvi o apito do guarda noturno, o som do vento nos fios elétricos, das folhas secas das arvores arrastando-se no asfalto.
Consegui por alguns instantes equilibrar-me num portão de grade, perturbando o sono de um Pastor alemão furioso. Em sequencias de luzes acesas, do quarto, da sala e da varanda. Um grito forte irrompe o latido do pastor alemão, oriundo de uma porta semiaberta:

_Vai embora seu bêbado, Filho da Puta.

Fui, escorando o muro de concreto, tateando palmo a palmo, vertigens alucinógenas, cores e rostos a cada piscar de olhos, sorrisos proveniente da escuridão, a loucura é colorida feito as pinceladas do vaso de girassóis de Vicent ou do álbum Manual do Boogarins.

Alguns meses depois...


...Vou perder você agora porque depois eu não suportaria, tomarei um café frio e amargo sozinho enquanto você dorme, ficarei a noite inteira acordado e com a janela da sala aberta, alimentarei na madrugada as mariposas com leite integral e, quando o sol aparecer você ainda estará dormindo, exausta do trabalho. Cortarei todas margaridas do jardim que eu plantei antes de partir pois, eu sei que as lembranças elas nos fazem emagrecer e adoecer. As lembranças são febris, tenha paciência que está próximo do final do outono e o inverno já não é tão rigoroso como antes. 

sábado, 11 de março de 2017

David Bowie - Blackstar


Lembro-me que você disse sobre o buraco negro, de suas palavras multiplicadas, das suas pupilas dilatadas, do seu riso que fugiu dos seus lábios antes do cumprimento da frase, você já estava louco, delirando, confundido Freud com Darwin. Pisei fundo no freio quando um cachorro apareceu do nada no meio da Rodovia e, você gritou, como nos velhos tempos que você gritava com o medo da chuva.



O cheiro dos pneus queimados nos fez tossir muito, somos muito parecido admito. Eu sorri olhando para o retrovisor testemunhando o cachorro ileso. Acelerei novamente observando seu rosto tão contraditório ao meu riso. Dormiu ainda amuado no banco traseiro do carro, talvez nem tenha percebido a lua e as milhares de estrelas do céu. Talvez nem notou quando parei o carro no meio do nada, abri a porta e sai, talvez nem ouviu o meu choro, a minha reza e o meu desespero.




E, justamente nesse desespero sentado na guia sob milhares de estrelas, sob lua. Pensamentos, centenas deles apossaram de mim, conduziram -me há vinte um anos atrás. Eu estava assustado com vinte dois de idade, trêmulo diante do maior milagre da vida, a vida. Não me lembro se sorri ou se chorei mas, eu me lembro de uma leveza tão grande em meu corpo, porventura se quisesse voar pelo hospital feito um pássaro juro que eu conseguiria, tamanha era a leveza e a felicidade que eu sentia.




Voltei para o carro, enxuguei minhas lágrimas, liguei o som, o último álbum do David Bowie -  Blackstar. Aumentei o volume e ouvi a voz dele.
_Abaixe o som Pai.
Não abaixei aliás, aumentei no volume máximo.
 Ele acendeu o cigarro. Pedi para ele abaixar o vidro.
Quando se aprende a fumar??? Eu sempre fui um péssimo fumante mas, admirava os profissionais, aqueles que engoliam a fumaça e conversava com você pra depois soltá-la, seduzia me aqueles que faziam desenhos com a fumaça. Fui um péssimo fumante.



Ele sabe fazer desenhos com a fumaça, eu observo enquanto dirijo: corações, bolinhas, triângulos. Isso, já não importa mais, odeio bolinhas, corações, triângulos, fumaças, eu odeio cigarros. Ele odeia David Bowie.
_Nossa Pai que som horrível.
Engulo em seco, David Bowie horrível pois, eu sei no fundo do meu ser que, se meu filho acha David Bowie ruim, a culpa é minha, não fui um bom pai.  Durante os primeiros anos o meu colo era o seu preferido, torcíamos para o mesmo time, cantávamos juntos o clássico “Heroes” do próprio Bowie. Tudo indicava que ser pai não tinha segredo até a primeira reclamação na escola.



_Seu filho não está obedecendo os professores, tem um comportamento antissocial e, não costuma aceitar as regras da escola.
No início eu achei que a diretora estava equivocada, acreditava cegamente que ela tinha confundido o meu filho com outro aluno. Meu filho era um anjo, não saia de casa sem a minha permissão e quando saia sempre ligava.
_Pai, estou aqui na Praça do centro as 22:00 horas estarei em casa.
Ele sempre cumpria os horários.
Divorcie-me alguns anos depois deste acontecimento, meu relacionamento com minha esposa pioraram com a descoberta que meu filho estava usando drogas. Eu achava que podia intervir na conduta dele, as vezes usando a violência verbal ou física. Minha esposa era oposta, aliou-se a ele, tinha opinião diferente e, que com sua maneira poderia mudar o jogo. Fiquei sem esposa e sem filho.




Blackstar o novo álbum do David Bowie comprei semana passada com mais de um ano de atraso, já conhecia todas as músicas mas, faltava o álbum físico, estou feliz com aquisição porém, devo confessar que a minha felicidade nunca mais foi mesma e, as vezes chego duvidar que ela realmente existe. Porém, o desconforto dessas visitas inesperadas, vagarosamente começa nutrir em lampejo dessa felicidade. No inicio eu achava que essas visitas era apenas para ele obter dinheiro para comprar drogas, mesmo com tanta discordância, mesmo com tanta ironia de ambos os lados, ressentimentos, culpas e silêncios prolongados, Enfim...
Antes de descer do carro ele faz uma pergunta perturbadora:
_Pai, você ainda gosta da mãe?
Demorei um tempo pensando, todos os conflitos desgastantes, agressões, palavras ofensivas. Ela quebrou meus vinis do David Bowie, ela se casou novamente, tem um outro filho, eu apenas envelheci... Quase que algumas lágrimas fugiram dos meus olhos.
_Um pouquinho – Respondi.
Então ele saiu do carro, ficou olhando pra mim pensativo e disse.
_ Sobre o David Bowie, Pai. Eu gosto um pouquinho dele também.

Esperei ele entrar, sua mãe esperava na varanda... Acelerei o carro, todo feliz “Eu gosto um pouquinho dele também”.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Pearl Jam - Yield


Que seja a melhor amiga de coque chinês, que tranque a porta e abra janela, que venha com filtros de contraste no rosto, que tenha um sorriso imenso que esconda a tristeza, que deixe as lagrimas caírem no chão, que sua boca pronuncie sinônimos, que tenha um cachorro do porte pequeno, que aponte o pôr do sol e dance no meio da chuva.


Estou me apaixonando outra vez, mergulhando no rio sem saber a profundidade, acreditando no fator sorte, a sorte que sempre tem me ausentado nos últimos anos, esperando que a esperança nunca morra, criando expectativas em arvores com raízes apodrecidas, que floresça e dê frutos mas, tenho que correr agora pois, o ônibus já vai passar, dormir em rodoviárias são experiências horríveis que, torço para que nunca mais se repitam.

Ela ri da minha situação precária, da minha timidez visível, do jeito que eu olho para o vazio. No entanto, ama minha coleção de vinil do Pearl Jam, gosta quando eu canto In Hiding ainda que desafinado, diz que gosta da minha companhia mesmo quando está com sono.


Então, para desorientar-me de vez, ela desfaz o coque chinês, deixando seus cabelos lindos, compridos caírem num balanço teatral, espalhando um doce perfume provocando em mim, dezenas de espirros embaraçosos.

_Desculpe, eu, eu sou alérgico.

E ela ri, ri muito, até perder o folego e, eu perder o ônibus.
Na rodoviária esperando o primeiro ônibus do dia, morrendo de medo, encolhido no banco observo um sujeito aproximando-se com um embrulho na mão:
_Hei amigo (minhas pernas tremem), Você não quer comprar este panetone da Bauducco por R$ 3,80... Acabou a gasolina do meu carro, o litro custa R$ 3,80 e, eu chego na casa da minha tia.


No fundo eu sabia que aquela história não tinha sentido algum, que dinheiro era para comprar droga, de qualquer modo não hesitei, arranquei uma cédula de dez reais da carteira e entreguei.


O ônibus chegou 5 horas da manhã...
E dentro do ônibus,sentado e com a cabeça encostada no vidro eu via centenas de luzes dos postes como se fosse um risco continuo, cochilei e abri os olhos. Eu via a garota de coque chinês em todas as esquinas, em todos pontos que o ônibus parava. Não estava doente, era apenas uma tosse que não me abandonava, uma alergia, uma coriza e dezenas de espirros.



Hoje faz um mês exato que não a vejo, um mês exato que eu ouço diariamente Yield, o álbum favorito dela do Pearl jam. Eu sei, ela era diferente da maioria das garotas que prefeririam o álbum Ten. Ela não, sua música predileta é Given To Fly.



Tive vontade ligar pra ela e me declarar porém, o medo sufocou toda minha coragem e, sentado em frente do portão da minha casa eu fiz as melhores poesias, com violão faltando uma corda, eu cantei dezenas de vezes In Hiding... Sei que tudo é incerto, tudo em volta é complicado, pássaros perdem suas vidas chocando-se nesses prédios modernos espelhados, o resfriado tornando-se mortais e incuráveis a cada ano que se passa... Sinto que talvez eu nunca mais a veja, cada despedida eu tenho essa sensação, aconteceu isto com minha fé quando voltava para casa num Domingo a tarde, uma criança de quatro anos idade soltou-se da mão do Pai e entrou na frente de um ônibus, minha fé foi embora nesse dia e, nunca mais voltou.



Então, eu penso que o destino fará a gentileza de encontrá-la pelas as ruas da cidade, talvez com marido e filhos, que ela não me reconhecerá iguais aos pássaros que não identificam os prédios modernos espelhados mas, eu reconhecerei pois sempre tive esse lado visual como um ponto forte e muito bem desenvolvido, mesmo que não esteja usando mais o coque chinês, com os cabelos curtos e com uns quilinhos a mais, devota de algum santo, catequista de alguma igreja... E eu, talvez calvo, cabelos grisalhos, sentando no banco da praça central da cidade, desquitado, aposentado e sem religião, espirarei com o perfume do seus cabelos quando passar por mim no entanto, não me reconhecerá.



Somente quando ela chegar em sua casa e o seu marido quiser queimar toda suas bugigangas, e, seus olhos depararem com o álbum Yield, paralisada por alguns minutos ela ficará, talvez se lembrará dos espirros e correrá para praça novamente mas, eu já estarei distante, ouvindo In Hiding.


Sei que tudo é incerto, tudo em volta é complicado, pássaros perdem suas vidas chocando-se nesses prédios modernos espelhados, o resfriado tornando-se mortais e incuráveis a cada ano que se passa...


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Muito Antes de Laura - Muito Antes de Laura

Muito Antes de Laura - Muito Antes de Laura

(Para o Blog Relato Estrépito continuar em 2017 terei que agregar minha outra paixão além da música, a fotografia... Relatos como este será cada vez mais constante... Abraços).


Alguém veio me visitar e deixou este álbum aqui, não sei quem? Porém, essas musicas me acompanham o dia inteiro. Entre o Relato deixarei algumas músicas que, certamente já faz parte do meu dia a dia.



Quando tento dormir sou impedido por imagens que vem a minha cabeça, imagens oriundas não sei de onde, de lugares que desconheço. Há uma garça branca no meio de um lago cheio de peixes e rodeada da solidão. Existe um biblioteca por perto mas, os garotos e as garotas nem percebem extasiados pelo efeito da fumaça que inalam: sorrisos fáceis, alegrias falsas de uma vida superficial.



Levanto e caminho pelo quarto, outros imagens deste mundo surreal vem à tona, alguns passos, me deparo com outro lago onde martim-pescadores sobrevoam, crianças atiram pipocas para os peixes coloridos. Aproximo do lago e perto da imagem de São Francisco um casal de viuvinhas preparam seu ninho numa arbusto todo florido. Não tenho certeza mas, algo me diz que eu já estive aqui antes.




Ouço um barulho no alto da palmeira, um gamba descontraído alimentando-se do fruto amarelado, fico ali observando todos os seus movimentos até surgirem as fanfarronas das maritacas. Mais alguns passos me deparo com um Rio de águas amareladas. Um arrepio percorre lentamente o meu corpo inteiro, adiante um lindo pôr do sol e ao meu redor um Rio que pede socorro.



Ouço alguém batendo na porta do quarto, é médico e suas visitas quase que diárias desde que sofri um acidente e minha memória se apagou. Pergunta como estou, e ,respondo que mais imagens deste Bosque Surreal continua aparecendo. Então pela primeira vez o médico me disse:
_Roberval este Bosque, ele existe e se chama Bosque da Princesa e, todas essas imagens que você me descreve também são suas fotografias. Você fotografou todas essas imagens que te perseguem



O médico abriu uma pasta, enfim deparei com centenas de fotos com minha assinatura, fotos que mesmo debilitado me perseguem.


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