domingo, 17 de abril de 2016

Suede - Night Thoughts


Aqui a noite é mais fria e solitária, o sono é raro e a falta de apetite não me faz mover da cama. Visitas noturnas com suas vestes brancas, fantasmas que não atravessam portas, que não voam e que não assustam. No entanto, te ferem com o lindo sorriso nos lábios, fantasmas que conversam com o seu delírio, ri, preocupam, desabavam, silenciam e vão embora sem atravessarem a porta.
Aqui pessoas morrem de verdade, do nada, de dor cabeça, de um resfriado, de uma tontura, morrem assim sem se despedir de ninguém. Eu fecho meus olhos, então, eu me vejo com asas de volta as ruas da cidade, vejo pessoas caminhando, ouço músicas do último álbum do Suede – Night Thoughts, vejo estrelas brilhando no céu, sinto respingos d’água do chafariz da praça, vejo meus amigos mas, eles não conseguem me ver. Eu voo lentamente sem pressa nenhuma, no entanto, eu sinto uma dor aguda em minha asa esquerda, carros, ônibus, motos, bicicletas e transeuntes faz a cidade movimentar. Luzes dos apartamentos, luzes dos postes, das estrelas, da lua, eu vejo luzes em todos lugares. Novamente a dor aguda me incomoda, bares, botecos, lanchonetes e pizzarias. Procuro por você em todos os lugares possíveis, brigo, discuto, xingo, enfezo com minhas incertezas. Mas, a dor aguda em minha asa esquerda faz tudo isso desaparecer, e um fantasma que não voa diz:
_ Tivemos que trocar o acesso do soro para seu braço esquerdo.
Injeção para febre, para estomago, para dor, para o fígado... Aqui a noite é mais fria e solitária.



Não sei bem o motivo mais me lembrei de toda discografia do Suede, e vi o próprio Brett Anderson dançando no corredor do hospital, médicos, enfermeiras, faxineiras, pacientes acompanhavam naquela dança frenética. Tentei me levantar da cama empolgado com tudo aquilo acontecendo, comecei a cantar em pleno pulmões até ouvir uma voz:



_ Ele está com febre alta outra vez.
Injeção para febre, para estomago, para dor, para o fígado...
A cama do meu lado amanheceu vazia, ele tinha apenas uma dor cabeça e faleceu. Tenho febre, dores, calafrios, diarreia, indisposição, urina escura...
 _Acho que vou morrer - Digo para enfermeira, ela ri e responde:
 _Você pensa que morrer é fácil?
 Então eu penso “Ele só tinha dor de cabeça”.
Durante o dia com a janela aberta vejo pombos no telhado, nuvens brancas no céu, um avião distante e silencioso. Ouço barulho de carros, de pardais e a cama vazia do meu lado, ele tinha apenas dor cabeça.



_ Oi.
Era médica que acabara de chegar, sempre com o aquele sorriso que não significava nada, sempre com aquele olhar complacente que também significava nada. Você poderia estar resfriado, com dor peito, câncer ou amputado uma perna que o sorriso e o olhar dela ainda assim seriam o mesmo.
_Tá ouvindo o quê? _ Indagou ela reparando o fone em meu ouvido.
_O novo álbum Suede – Respondi olhando para os pombos, observando que o avião já não fazia parte da minha visão.
_The London Suede – Ela respondeu.
Olhei rapidamente para sua direção e outra vez, aquele sorriso que não significava nada.
Ela continuou:
_Morei na Inglaterra nos anos noventa e o Britpop estava alta, Suede era minha banda favorita. O Brett Anderson meu deus!!! – Ela olhou em minha direção com aquele olhar que não significava nada e, complementou: _ O Brett Anderson era tudo.



Não sei bem o motivo porém, comecei a falar seriamente do que ocorrei na noite passada:
_Doutora o Brett Anderson esteve aqui ontem a noite, e, você sabe disso, fez todo mundo dançar pelo corredor afora. Desculpe me, mas nunca vi uma pessoa dançar também como a senhora.
Ela rapidamente chamou enfermeira sorrindo e me encarando, o que não significava nada. Não havia mais pombos no telhado e nem nuvens brancas no céu. Sua voz era pastosa e quase inaudível. Disse ela que minha febre estava alta, altíssima ao ponto de delirar, de ver o que não se enxerga, de ouvir o que não foi dito.
_Paracetamol na veia – Recomendou para enfermeira que acabara de entrar no quarto.
 Sinto dores em minhas pernas, dores insuportáveis mesmo imóvel. Tenho um novo vizinho na cama ao lado, só trocaram os lençóis. Acidente de moto, tão novo o rapaz, não mais que vinte anos. Ouvi alguém dizer enquanto eu contorcia de dores que, ele estava com uma sonda para alimentar.  Suores frios transitavam pelo meu corpo inteiro, ouvi alguém dizer que ele perdeu parte do pâncreas. Recoloquei o fone no ouvido e, não ouvi ninguém dizer mais nada.
 Adormeci um longo período e acordei, só que meus olhos enxergavam apenas escuridão. Nenhuma luz emergia por mais que forçasse minha visão e no meio dessa treva, ouvi alguém dizer que ele tinha dores musculares e febre alta, que o batimento cardíaco estava normal, e a pressão normal que, era uma pena perder um paciente assim, tão de repente. Pensei comigo na escuridão meu Deus tão novo. Amaldiçoei em pensamentos aquela cama que ficava do meu lado direito perto da janela. Duas mortes em menos de vinte quatro horas. Foi quando eu ouvi alguém dizer que o mocinho perto da janela estava reagindo bem aos medicamentos.
Como assim? O quarto com têm duas camas, o mocinho perto da janela estava reagindo bem aos medicamentos. Eu não sou mocinho e a minha cama não fica perto da janela.
Tentei chamar enfermeira com desesperado porém, minha voz não saia, a escuridão permanecia, não sentia mais dores nas pernas, sentia apenas que meu corpo flutuava e a música do Suede ainda continuava alta.




Que estranho, quando tinha dezoito anos de idade vislumbrava com a morte, agora com quarenta três eu não posso estar morto: esposa, filhos, neta, amigos, truco no boteco, fotografias e a tão sonhada volta do The Smiths...
The Furs & The Feathers é última música do novo álbum do Suede que foi interrompida bruscamente.
_Desculpe acordar você assim. Mas, é só puxando o fone do seu ouvido para acordar você.
Meus olhos saíram da escuridão e, eu nunca fiquei tão feliz de testemunhar aquele sorriso que não significava nada. Era a doutora com cabelos soltos que esvoaçam com o vento que entrava pelo um pequeno vão da janela aberta. Ela disse:
 _Tenho algumas novidades para você.
_Diga - Respondi ainda aliviado de tudo ter sido um sonho.
_A primeira coisa é que seus exames deram tudo negativo. Dengue, Leptospirose, Hepatite A. Enfim...
_E?
- Que não sabemos qual é o vírus ainda.
Criou-se um silencio que o pingo do soro ficou audível. Pensativa, pausadamente e preocupada com cabelos ela continuou:
_Continuaremos com os remédios para controlar a febre e o soro para hidratar e, tente alimentar direito. Sei que a refeição aqui não é uma das melhores mas, com certeza tem tudo o que você precisa.
No entanto, somente quando ela abriu a porta para ir embora que ela virou se e disse:
_Roberval esqueça o The Smiths jamais retornará.



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Joy Division - Closer




Pare o carro, puxe o freio de mão, desligue os faróis mas, não desligue o rádio. Aliás, aumente no volume máximo essa é a primeira faixa do álbum Closer do Joy Division chamada Atrocity Exhibition. Você se lembra dessa música? Com certeza lembra... Pausa antes de começar a segunda música. Eu poderia acabar com você agora.



 Agora saia do carro. Você se recorda daquela arvore? Um ipê amarelo todo florido em sua frente. Vamos até lá. Observe que o vento arranca algumas flores do ipê igual a primeira vez que estivemos aqui. Você se lembra dos diálogos que tivemos? É bem diferente de hoje. Pois hoje, só eu que falo. Enxugue suas lágrimas, tardias elas não têm nenhum significado, nem mesmo com os raios do sol elas não brilham... Eu poderia acabar com você agora.

Isolation (tradução)

Mãe, eu tentei, por favor, acredite em mim,
Estou fazendo o melhor que posso.
Me envergonha as coisas que tenho feito,
Me envergonha a pessoa que sou.

Voltaremos para carro e ouviremos a segunda música Isolation, depois rumo ao centro da cidade vizinha, desceremos na choperia porém, antes ouviremos Passover e, eu te peço, não faça nenhum movimento brusco ou tente fugir, eu não tenho nada perder e, você sabe disso. 



Pedirá dois chopes e brindaremos possuídos de uma felicidade inexistente. Então você tocará em meu rosto suavemente até tocar os meus cabelos, fará um círculo incompleto em minha orelha e, passará o dedo trêmulo em meus lábios no entanto, não me beijará com a certeza que eu... Eu poderia acabar com você.
Retornaremos ao carro, Heart And Soul ouviremos no estacionamento em silencio, não olhe nem por segundo em minha direção apenas ouça a melodia e, que sua barba não cresça nenhum centímetro se quer, e seus dedos não tamborile a percussão da música no volante e, sua respiração continue sincronizada. Que a música penetre em seu ouvido, fazendo te arrepiar e te leve para aquele lugar onde os olhares curiosos, ávidos e sem direção enxergam um mundo colorido de ilusão, mascarando assim o inferno de suplicas e lamentações.


Instintos que ainda podem nos trair,
uma jornada que leva até o sol,
Desalmado e inclinado à destruição,
Um conflito entre o certo e o errado.
Assuma você o meu lugar no confronto final,
Eu observarei com um olhar cheio de pena,
Humildemente invocarei o perdão,
Um pedido muito além de você e de mim...

Eu estive numa clínica, eu estive com olhos pregados em uma vidraça durante a chuva, eu tive medo de ir embora porem, ficar estava me matando. Das alternativas a fumaça do meu cigarro apontou a direção da fuga, planejei durante semanas fumando cigarros da mesma marca, sentado no mesmo lugar. Fugi para onde a fumaça apontava a direção. Fugi de mim mesma, desesperada, alucinada, ouvindo Twenty Four Hours. Sob um céu sem estrelas, sem lua, encoberto por densas nuvens escuras, relâmpagos, trovoes e granizos. Então eu parei, respirei debaixo de uma gigantesca arvore, acendi outro cigarro da mesma marca esperando que fumaça me guiasse, porém um raio violento me fez jogar o cigarro e rolei ribanceira abaixo. A fumaça dissipou e outra vez eu fiquei perdida. Eu não quero que você se comova com isso pois, eu poderia acabar com você agora.



Acelere, rápido, acelere quero novamente sentir o vento, o perigo, a música, o movimento, quero que o meu pensamento balance, quero que meus olhos não se percam no risco continuo dessa cerca de arame farpado ao redor, acelere até que minhas lembranças me façam sangrar novamente, me traga o ritual dos inválidos e que surja Rose com seus dentes podres e unhas sujas e me abrace fortemente e diga-me “Desta vida a única certeza que temos é a morte”. E, Rose morreu no dia seguinte estuprada e com a cabeça aberta por uma barra de ferro.

Agora pare, freia bruscamente já estamos na última música "Decades", a hora que você tem descer do carro, a hora que se reza para um Deus que a sua fé sempre renegou, não olhe para trás não quero que minhas lágrimas encontrem com as suas, lágrimas que seguem o mesmo caminho no entanto, de sentimentos opostos. Quero que saiba que você foi meu único amor, vivi intensamente tudo isso, meus melhores dias, minha alegria fora de controle, meu jardim florido e noites de estrelas. Saiba, eu morri quando fui traída, nada mais disso me importa, eu não me importo mais se alegria foi embora e as flores estão mortas. Saiba você que Rose com seus dentes podres e suas unhas sujas tinha razão... Você também morre no final.



Cansados por dentro, agora nossos corações perdidos para sempre
Não podemos nos recompor do medo ou da ânsia da perseguição
Estes rituais nos mostraram a porta para nossas caminhadas sem rumo
Aberta e fechada, e então batida na nossa cara.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Stone Temple Pilots - Core


Em 1992 sai da cidade de Itaquaquecetuba para servir o Exército no Batalhão Borba Gato na longínqua Cidade de Pindamonhangaba no Vale do Paraíba, confesso que me apaixonei pela Cidade logo no primeiro dia. O ano foi corrido e atribulado. Ordem unida, treinamento de tiro, exercícios físicos, hierarquia, pressão, etc.
No entanto, a noite a gente saia para dar um rolê pela cidade, que era bem tranquila, lembro de alguns barzinhos, a Igreja da Matriz, o Bosque da Princesa e a Praça da Cascata que tinha um chafariz que jorrava água vinte quatro horas por dia. Havia também muitas garotas nos rodeando conhecidas como Maria Batalhão.



O ano de 1992 foi um ano bem Rock n`Roll  eu ouvia muito Nirvana, Pearl Jam e Alice Chains. Logicamente que no Batalhão as músicas prediletas da maioria dos soldados era o pagode da Eliana de Lima, Raça Negra e o rap dos Racionais Mc´s. Naquele tempo eu já andava na contramão.


                                          


Eu tenho história para contar nessas ruas, monumentos e lugares de Pindamonhangaba. Recordo-me que em serviço uma vez atrai uma Maria Batalhão dentro da Guarita no meio da madrugada, tive que colocar minhas mãos em sua boca pois, ela era muito escandalosa, teve uma outra vez numa noite fria de inverno que, encostado na parede do Cemitério Municipal fizemos o coito. Mas, foi uma que não se encaixa no termo “Maria Batalhão” que fez da bela Cidade de Pindamonhangaba uma cicatriz incurável no meu corpo.
Sentado no banco da Praça da Cascata sentido os respingos das águas do grande chafariz que, avistei uma bela garota carregando toda feliz debaixo dos braços o vinil recém- lançado do Stone Temple Pilots. Corri atrás e quando alcancei eu disse todo sem jeito:

_Stone Temple Pilots?

Ela com riso assustada respondeu:

_É.. Acabei de comprar. Ouvi semana passada na MTV, fiz encomenda e chegou hoje.

Bem assim começa a trilha sonora desta cicatriz incurável:




Hoje eu estou morando no Sul de Santa Catarina. Sim, lembro-me dos olhos dela, a voz nem tanto, não importa, ainda assim sinto respiração dela e, já passaram vinte três anos e ainda penso nela, ainda ouço o nosso álbum favorito “Core”. Tornei-me avô semana passada e algo me diz que já vivi mais da metade da minha vida, o tempo voa e é implacável, um infarto me deixou debilitado, com síndrome do pânico e emotivo demais. Remédio para dormir e outro para manter a pressão. Sinto a necessidade de ver ela apenas para dizer que ainda penso em dar um jeito em nossa situação, como sempre dizia e, ainda digo toda vez que me sinto sozinho, triste e acabado.


Estou pensando na próxima férias ir para Aparecida do Norte e quem sabe aparecer em Pindamonhangaba. Será que nesses vinte três anos a cidade modificou bastante? A Praça? O Bosque? A Avenida Nossa Senhora do Bom Sucesso?



Recordo-me agora que foi ouvindo Stone Temple Pilots no Walkman dela que, fumei maconha pela primeira vez diante das águas amareladas do Rio Paraíba do Sul, no Bosque da Princesa. Não sei quem tomou a iniciativa mas, nos beijamos pela primeira vez e foi ali mesmo no Bosque, atrás de um tronco enorme de uma arvore centenária que fizemos amor.



A saudade está corroendo-me... Ainda sinto falta dela, falta de Pindamonhangaba, falta do Stone Temple Pilots, falta do Bosque da Princesa. Será que ela ainda espera que eu dê jeito na situação? Ou será que ela desistiu?

Pindamonhangaba


Não importa, quando eu voltar para Pindamonhangaba vou colocar no volume máximo o álbum "Core" em meu MP3, vou caminhar com cabeça erguida pelo Mercadão, pela igreja Matriz e o Batalhão Borba Gato. Vou procura-la em todos os seus lugares favoritos e quando avista-la vou correr atrás dela como se fosse a primeira vez que há vi com vinil do Stone Temple Pilots debaixo dos braços.

E ela rindo assustada...


sábado, 21 de novembro de 2015

New Order - Music Complete




Para aonde vai chuva? Aonde ela termina? Fico aqui pensando enquanto ele não atende o telefone.
Fico arrependida de ter ligado e, quando penso em desistir ele atende.
_Alô???
Ouço sua voz penso em desligar, ouço vozes de fundo e a música a nova New Order - Restless... ouço também o barulho da chuva, ele não deve estar tão longe.




_Alô???
Ele insiste, eu ouço uma a voz de mulher indagando:
_Quem é?
_Eu não sei. Não responde.
Ouço risadas e a introdução da segunda música Singularity do novo álbum Music Complete. De repente um trovão ensurdecedor assustou-me que quase me fez derrubar o celular.




Outra vez a mesma voz mulher.
_Hei... Sua cerveja vai esquentar.
_ Espera ai – diz ele e continua: _ É você Lê?
Lê??? Sou Renata, O que poderia ser Lê... Leandro, Leandra, Alessandro, Alessandra, Alexsandro, Alexsandra... Poderia ser centenas de combinações mas, a possibilidade de Lê ser Renata é quase nenhuma. Na verdade tal possibilidade nem existe.
_ Quem é Lê?
Agora quem questiona é a voz da mulher.
_Lê é uma amiga minha Ma.
Na terceira música do novo álbum do New Order - Plastic sou eu quem fica matutando outra vez. Ma? Quem seria Ma?





Márcia, Mariana, Maria, Marcela com L, Marcella com dois L, Marieta, Maristela, Madalena, não Madalena sem chance é minha melhor amiga, Marta, Marieta...
Então ele continuou:
_Eu sei que é você Lê.
Eu já estava decidida desligar o celular mais a oitava música Nothing But A Fool é a minha favorita, viajei que só depois do seu termino que voltei a ouvir voz dele:




_... Sabe que eu te amo.
_Que me ama??? – Questionei sem querer ainda entorpecido pela viagem musical.
_ Até que enfim você respondeu Lê.
Pensei em dizer “ Lê é a puta que pariu” no entanto não disse nada. Apenas olhei para luz do poste, observei os riscos que os pingos da chuva fazem antes de cair o chão, antes de se juntar e formar correntezas de águas. Deixei rolar algumas lágrimas mornas não de tristeza, mas de uma raiva gigantesca que apoderava o meu corpo inteiro.
_Lê? - ele insistiu.
_Lê é a puta que pariu – Não aguentei ainda observando os ricos dos pingos da chuva e interceptando outras lágrimas mornas oriundas dos meus olhos.
Continuei:
_Escuta foda-se a Lê, a Ma, a Li, a Jô e todas essas pragas. Estou me sentindo mal, muito mal mesmo de ser nessa tua lista talvez a Re. Isso me enoja demais, ser vítima dessa sua conversinha melada... Apenas não entendo que uma pessoa sem caráter como você possa ter um bom gosto musical. Sei lá, acho que deveria ser proibido.
Joguei o celular numa grande poça da água e corri, corri feita louca enfrentando o vento e a chuva. Raios e trovões não conseguiram me impedir e, outras lágrimas mornas esfriaram com os pingos da chuva, livrei-me das minhas sandálias na esquina de alguma rua que agora não recordo o nome, meu coração parecia que ia sair pela boca porém, continuei acelerada, que nem percebi a queda do brinco da minha orelha direita. Lembro-me que taxista tentou me acompanhar:
_Ei moça aconteceu alguma coisa?

Pensei em dizer alguma coisa mais não disse nada, talvez ele não entenderia que a minha pressa era apenas para chegar em casa e ouvir as quatro ultimas músicas do álbum Music Complete. 


sábado, 31 de outubro de 2015

Ougth – Sun Coming Down


Ougth – Sun Coming Down

O que faz uma pessoa voltar ao vício? O que faz uma pessoa perder controle novamente?

Eu ouvi dezenas de histórias de ex viciados que voltaram ao vicio com um apetite ainda maior. Teve uma história que o cara tinha parado com pó até encontrar sua esposa, sua maior incentivadora de parar com o vício, trepando com o seu melhor amigo no seu quarto.
Está eu ouvi dentro de um ônibus. Duas mulheres conversavam no banco na minha frente:
_ Hum. Ele voltou a usar droga de novo. Descobriu que sua filha caçula é uma prostituta. Coitado, só ele não sabia que sua filha é maior vadia da cidade.

Por assédio moral na empresa um rapaz voltou ao vício e, matou seu chefe... Teve outro caso que cara voltou ao vício por achar a vida sem droga careta demais.

Eu voltei ao vício... e senti o maior transgressor pelo simples fato de andar pelas ruas com uma lata de cerveja na mão, fone no ouvido no volume máximo. O segundo álbum da banda “Ought – Sun Coming Down”é fodástico.


Não sei ao certo o dia que decidi parar com tudo mas, com certeza foi ouvindo o álbum broxante do Muse – The 2nd Law que, decidi parar com as drogas e, desde então eu consegui me manter limpo.

Durante este período eu ouvi alguns álbuns bem interessantes mas, nada que pudesse me fazer levantar do sofá e ir correndo no bar mais próximo, encher a cara, embebedar até cair e dormir na calçada.

Olha, motivos não faltaram para voltar, e, nessa mesma ordem que eu escrevo:
 Perdi o emprego, a esposa e os amigos. Depois perdi o carro, a fé e a autoestima. Para sobreviver vendi a coleção de vinil dos The Beatles, do Nirvana e da Janis.

Arranjei um novo emprego de vigia noturno e uma nova religião, enturmei com pessoas do bem e aos Domingos na Praça do centro da cidade eu pregava palavras de Deus. Minha nova namorada tem a metade da minha idade, seus olhos são verdes e seus cabelos compridos. No entanto numa quinta-feira chuvosa de folga fui conduzindo no piloto automático a tentação de abrir o Blog Floga-se, o meu preferido nos tempos de perdição e lá, Fernando Augusto Lopes um aliciador musical do mal disse sobre o álbum Sun Coming Down: um pós-punk classudo, ora lembrando The Fall, ora lembrando Davi Bowie.
Sim. Voltei para o vício:  Perdi o emprego de vigia noturno, a religião e a namorada de olhos verdes.




Ougth – Sun Coming Down é bom do começo ao fim, é viciante! Eu sei também que se um dia eu sentir arrependido de novo dessa vida de vícios, sempre haverá alguma coisa do Muse para ouvir.

sábado, 10 de outubro de 2015

Radiohead - Ok Computer


Radiohead - OK COMPUTER


_Papai estou  cansado e com dor nas pernas, eu quero colo.
_ Larga disso menino. Você não queria tanto conhecer a praia, agora vai querer colo? Vai brincar com seus irmãos.
_Agora é sério, estou com dor nas pernas...

Então comecei a chorar.

Isso já faz dezoito anos, meu primeiro dia na praia também foi o meu último. Nunca mais voltei para a praia, nunca mais testemunhei a onda do mar e nunca mais voltei a andar. Naquele fatídico dia eu tinha apenas sete anos. Lembro-me que na véspera eu não consegui dormi sonhando com o mar. A alegria instaurada no rosto de Mamãe, do meu pai e dos meus irmãos são indescritíveis e inesquecíveis... Alegria que eu jamais testemunharia novamente nos rostos dessas mesmas pessoas. Eu, o filho caçula e o mais parecido com o Papai, o que valia muitos comentários:

_ “Cara de um focinho do outro”.

_ “Lá vai o xodozinho passear com o Papai”.

 E eu ia mesmo passear ou ouvir seus discos favoritos.



_Está banda é o Radiohead... Guarde este nome Juninho, você um dia ouvirá muito sobre eles e, sabe que quando você ouvir o Radiohead daqui sei lá, dez, quinze, vinte anos, você lembrará do Papai.
Hoje faz exatamente dezoito anos do dia que fomos para praia e eu, estou ouvindo Radiohead e as lembranças me deprime absurdamente.

Papai e mamãe no banco da frente. Papai dirigindo e eu, envolta dos meus irmãos no banco de trás. Papai querendo provar minha esperteza ligou o rádio do carro:
_Ouça amor? Juninho quem está cantando?
Respondi com toda convicção.
_Radiohead.
_Qual o álbum?
_Ok Computer.
_Qual é a Música?
_Airbag... Aumenta ai papai.
Então papai sorriu na direção de mamãe todo satisfeito.


 Recordo-me como se fosse hoje a velocidade que eu sai do carro em direção ao mar, do choque com a onda, do gosto da água salgada, da alegria de meus irmãos, dos guarda-sóis coloridos, do vendedor de camarões, do sorveteiro e do beliscão que Papai recebeu de Mamãe após olhar uma morena de biquíni. Sempre que essas lembranças vêm, traz consigo aleatoriamente músicas do álbum do OK Computer.



No finalzinho da tarde nuvens escuras se formaram no céu e, justamente quando uma enorme cobriu o sol uma fisgada forte em minha perna direita me fez ficar manquitolando, com muito esforço consegui me aproximar do meu Papai:

_Papai estou cansado e com dor nas pernas, quero colo.
_ Larga disso menino. Você não queria tanto conhecer a praia, agora vai querer colo? Vai brincar com seus irmãos.
_Agora é sério, estou com dor nas pernas...

Então comecei a chorar.

Aqueles passos doloridos para aproximar do meu Papai, também foram meus últimos passos. Quando ele me pegou no colo foi também a última que me viu de pé sem ajuda de muletas. O mais próximo que os médicos chegaram é uma doença chamada Síndrome de Guillain-Barré.
Fisioterapia com trilha sonora de Ok Computer, infiltrações, injeções, massagens, dor muita dor e trilha de Ok computer. Cama, muletas, cadeiras de rodas com Ok Computer.



E foi também ouvindo Ok Computer que eu testemunhei a decadência do meu querido Papai que, tantas vezes não conseguiu segurar suas as lagrimas, chorando compulsivamente abraçando-me  e, algumas vezes blasfemando  Deus, discutindo com minha mãe e batendo a porta do quarto com tanta força que o barulho ficava ecoando em minha cabeça a noite inteira e, até hoje continua ecoando.
Papai perdeu o controle da bebida, sua barba cresceu e a esperança da minha cura ele perdeu. Começou a se culpar por minha doença:
_Se a gente não tivesse ido para a praia naquele maldito dia nada disso teria acontecido.


Uma noite Papai entrou no quarto e quebrou o cd Ok Computer, o aparelho do som e as imagens sacras de minha mãe. Meu irmão que tentou segura-lo, levou um soco na boca, meu querido Papai estava irreconhecível, incontrolável, barbudo, bêbado e desempregado.



No dia seguinte minha Mamãe comprou outro aparelho de som e outro cd Ok Computer do Radiohead. O meu Papai sumiu de casa e, somente quase um ano depois chegou a triste notícia do seu falecimento. Morreu sozinho numa cidade vizinha, em baixo de uma ponte com tiro na cabeça. Diz a polícia que foi suicídio.



Hoje eu ganhei uma cadeira de roda motorizada da Prefeitura da minha cidade e as lembranças do meu Papai vieram acompanhada de uma chuva torrencial, entre as nuvens escuras eu vi o desenho do rosto do meu Papai sorrindo porém, um relâmpago quase me cegou e um trovão fez tudo tremer... Voltei pra sala e liguei o som.





domingo, 13 de setembro de 2015

Los Hermanos - Ventura



Há exatamente quatro meses conheci Maicon, funcionário de experiência na linha de produção na máquina na qual eu era operador havia seis anos. Introspectivo o jovem de riso difícil, cabisbaixo e voz baixa, Maicon parecia viver em outro mundo o que dificultava o meu ensinamento.
Outra coisa que chamava bastante minha atenção é número altíssimo de tropeços, ele sempre estava tropeçando em alguma coisa o que é bastante perigoso em uma empresa, outra coisa que me intrigava em Maicon era sua devoção pela banda Los Hermanos.
Sempre cantarolando uma canção:  
Abre essa porta
Que direito você tem de me privar?
Desse castelo que eu construí
Pra te guardar de todo mal
Desse universo que eu desenhei
Pra nós, pra nós...



Num belo dia que a produção parou devido à queda de energia ele se aproximou-se e disse:
_Ai meu Deus, tomara que tudo dê certo aqui
Eu que estava tomando um cafezinho, achei que fosse algum trecho da música do Los Hermanos, esperei. Como não teve continuação ou refrão dei outro trago no café e indaguei:
_Tudo certo o quê?
Ele suspirou fundo e soltou o ar, passou a mão esquerda pelo rosto, contornou a cabeça, roçou a barba ruiva e áspera, finalizando esfregou os lábios com as pontas do dedo e respondeu:
_Tomara que eu me efetive nessa empresa.
_Fique despreocupado, vou fazer a cabeça do meu encarregado pra ele efetivar você. Ele é meu amigo tomamos cervejas quase que todos os dias, vou falar de você pra ele.
_Nossa!!! Obrigado. Sabe, antes de entrar aqui trabalhei em três empresas e as três faliram mas, sei lá... Aqui vai ser diferente.
Não sei o por quê? Aquelas palavras me fizeram arrepiar. Como assim? As últimas três empresas faliram?
Então ele começou cantarolar:
De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente?
Ele não sabe ser mais viril
Ele não sabe não, viu?
Às vezes dá como um frio
É o mundo que anda hostil
O mundo todo é hostil...



Bem, aquele dia o encontro que ia ter com o meu encarregado que é meu amigo foi desmarcado com a triste notícia que ele tinha sido demitido, pelos comentários que rolavam na produção devido à crise dezenas de funcionários tinham perdido o emprego e outros tantos entraram em férias coletivas.
No dia seguinte, com a empresa quase que vazia fui eu que comecei a cantarolar a música dos Los Hermanos, dentro da cabine rodeados de botões e observando a chegada de Maicon, cabisbaixo e tropeçando em tudo:
Olha só, que cara estranho que chegou
Parece não achar lugar
No corpo em que Deus lhe encarnou
Tropeça a cada quarteirão
Não mede a força que já tem
Exibe à frente o coração
Que não divide com ninguém...



Final da história: Maicon não foi admitido na empresa, pior ainda, a empresa faliu. Culpa da crise? Do Maicon? Do Los Hermanos? Eu não sei, estou indo para o terceiro mês desempregado e o Maicon me manda mensagem quase que todos os dias...
_E ai conseguiu emprego? Se conseguir me avisa por favor, tá osso aqui.
O que mais apavora na mensagem de voz de Maicon que, sempre de fundo e ouço essa música:
Olha lá, quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar

Eu que já não quero mais ser um vencedor

Levo a vida devagar pra não faltar amor


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nirvana - In Utero



As melhores notícias as vezes são as piores. Ri enquanto sentia seus chutes em meu útero. Construirei nossa casa no meio dessa droga toda e, definharei na carência e pela falta de controle, eu sinto dor por dentro e por fora. Queria ser forte mas, desmancho em lagrimas com e outras vezes sem sentimentos. Dirijo palavras sem virgulas e acentos, acabo frases com reticências. Até onde eu posso me afundar com juízo pois, depois que ele for embora a insanidade me abraçará.


Queria apenas acreditar que o vento que antecede a tempestade é calmo no entanto, ele é impiedoso... Arrancou o telhado e derrubou árvores. Eu queria que você acreditasse que um dia eu pensei em ser feliz mas, existe vitorias e derrotas e, eu escolhi as derrotas para debruçar na ponte e ver as águas do Rio levar minhas vitorias. Sim, aquelas que deixei fugir sem ao menos lutar.




Eu só queria deixar um pouquinho deste meu riso que um dia foi encantador e hoje, é apenas camuflagem de uma criança que faleceu criança há muito tempo atrás. A verdade me consome feito lenha seca no fogo. Nasça e me deixa morrer numa hemorragia incessante. Não tente entender se um dia descobrir que prefere os dias chuvosos e que ouve vozes o tempo todo. Não busque em fotografias semelhanças, evite comparações, não procure explicações e jamais ouça In Utero do Nirvana.




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