quinta-feira, 25 de maio de 2017

First Aid Kit - The Lion's Roar

First Aid Kit - The Lion's Roar



Acabei de assistir pela a Televisão o Show do Band of Horses  no Festival Lollapalooza, é a primeira vez que acontece esse Festival idealizado Perry Farrel aqui no Brasil.

 Entre esperar a apresentação do Foo Figthers e dar role pelo centro da cidade, optei pela segunda opção.
Chave, carteira, celular e fone de ouvido. Meu kit de sobrevivência para qualquer andança. Fecho a porta, o portão, há vizinhos e crianças na calçada, é curioso o jeito que eles me olham como se eu fosse de um outro mundo, sorrio descontraído para eles que me retribuem porém, uns quatros passos adiante consigo ouvir cochichos maldosos sobre a minha pessoa. Deixa pra lá, eu não me importo.

Primeira parada a Padaria que mais parece um boteco, bêbados caídos no chão, outros te pedindo um real e outros que só querem pegar a sua mão. Uma lata cerveja e uma indecisão. Pra onde ir no centro?

Sei lá... Os melhores clubes e bares estão apinhados de jovens com a idade do meu filho mais velho que acham Foster the People a melhor banda do mundo e, você corre risco ainda da garota mais bonita te chamar de tiozão.

Ajeito o fone no ouvido “First Aid Kid” The Lions Roar. Lembro-me dessas duas adolescentes do Youtube fazendo cover do Fleet Foxes:


Sei lá, quando o nome de uma musica é nome do álbum sobrecarrega a musica de uma responsabilidade incrível,  como que ela (musica) fosse o resumo do álbum em si.



No ônibus rumo ao centro na cidade, eu me assento perto da janela, à escuridão da noite é semelhante à escuridão de dentro de mim, há luzes fracas que mal ilumina as ruas, há traficantes, prostituições, há violência e algumas estrelas.


Ponto final, ganho as ruas do centro, cidade dos carrinhos de hambúrguer, dos cachorros abandonados e dos craqueiros. Bar do Chinês apinhado de desiludidos, de mulheres que traem, de empresários falidos, de artistas frustrados, de trombadinhas, gays e lésbicas. Parece que tudo que sociedade não aceita são fregueses assíduos desse bar.


Peço uma cerveja, o Lee dono do estabelecimento  já me conhece, pede gestualmente pra tirar o fone e, num português quase indecifrável ele pergunta "Como estou?", sem se importar como minha resposta “se estou bem ou mal” ele sai rapidamente pra atender outra pessoa, o negocio do Lee é o dinheiro.

Do meu lado esquerdo, perto do banheiro, duas meninas lindas no auge da volúpia se beijam num frenesi doido que meus olhos não conseguem fugir e nem fingir. Outra cerveja, um artista frustrado aproxima de minha mesa e outra vez, sinto-me obrigado a tirar o fone dos ouvidos. Ele me mostra uma xilogravura do The White Stripes... Já vi xilogravura de Raul Seixas, Jesus Cristo, Kurt Cobain e até mesmo do Eddie Vedder... Porém do The White Stripes? Quem iria comprar uma xilogravura do The White Stripes?
Quanto custa? Perguntei.
Estava disposto a pagar cinquenta reais naquela maravilha.
_Tiozão... Paga litrão de Skol já era.
(Detesto que me chama de tiozão).


O banheiro masculino do Bar do Lee é imundo. Baratas e o cheiro forte de urina sempre muda minha rota para banheiro feminino.
Porra!!! Duas meninas nuas atracadas no banheiro...

Talvez nessa delonga eu tenha apertado o repeat quatro ou cinco vezes nesse maravilhoso álbum “The Lions Roar”.

De volta para casa de ônibus eu me assento perto da janela, à escuridão da noite é semelhante à escuridão de dentro de mim, há luzes fracas que mal iluminam as ruas, há traficantes, prostituições, há violência e algumas estrelas...



quinta-feira, 18 de maio de 2017

Projeto Mall Star


Olha o Professor de filosofia com sua barba enorme, a noite passada ele quase morreu eletrocutado no chuveiro, suas ideias esquerdistas e um olhar profundo de uma esperança marxista. Antes meia dúzia de pessoas cultuava suas ideias porém, o movimento cresceu e, tem gente grande querendo sua cabeça. Espiões disfarçado em guardadores de carros, vendedores ambulantes, mendigos iletrados, viciados em craques, banguelas e um homem que filma o movimento atrás do poste.

Ele está sendo bem vigiado mas, é cercado por grandes intelectuais, é blindado por bandidos de alta periculosidade, por seguidores fiéis de suas doutrinas. Há pessoas infiltradas na política e na polícia ao seu favor que, em noites impares trazem informações valiosas antecipando os passos de uma possível emboscada. Ele é ligeiro e articulador, pichador profissional dos monumentos da cidade, o que ainda lhe causa uma adrenalina infanto juvenil. No entanto, quando fica só em sua grande casa de aluguel, faz poesia sobre lua, sobre a chuva e sobre o pôr do sol. Lágrimas irrompem dos seus olhos quando saudade da sua ex invadem seus pensamentos... Ali no quarto com a cama ainda com dois travesseiros, com bichos de pelúcias, seus ideais marxistas, esquerdistas e o caralho aquático não fazem diferença nenhuma... E se algum espião banguela pudesse lhe ver assim diria ao seus superiores:

“_É um frouxo sentimentalista.”

Ligou o aparelho de som e, escolheu ainda com o controle na mão um arquivo musical do Projeto promissor denominado MALL STAR.


Foi para cozinha, abriu a geladeira apossou de uma cerveja, o celular vibrou em seu bolso, verificou, era uma chamada de um policial ao seu favor. Enxugou as lágrimas, abaixou o volume do som, tentou recompor a voz:
_Alô?
_Tudo Limpo – Respondeu a voz do policial do outro lado da linha.

Aumentou novamente o volume do aparelho de som.

Voltou para o quarto pegou o travesseiro que minutos antes estava abraçado, jogou álcool e acendeu a chama do isqueiro, rapidamente o fogo se alastrou. “Tudo limpo” a voz do policial ficou ressoando em sua cabeça. Passou e repassou a mão em sua enorme barba. Logo mais, antes do sol nascer, queimaria pneus na avenida principal nos dois sentidos. .

Compareceu na avenida como havia combinado com seus discípulos, cumprimentados e abraçados por todos ali, em compensação sua cabeça estava em prêmio, se um daqueles discípulos fraquejasse como Judas fraquejou era o fim. Adentrou em seu carro popular e, só acelerou quando testemunhou as chamas altas dos pneus, lembrou-se das chamas do travesseiro algumas horas atrás, “o fogo era algo libertador”.

Professor de filosofia adorado pelos alunos e odiados pelos professores, mal sabia ele que até na escola era vigiado pela dona da cantina que, o seguia no seu Instagram, Facebook e Twitter, com seu olhar verde esmeralda, aliás, seu olhar que pouco destacava em seu rosto rechonchudo, uma enorme verruga sim, ganhava um grande destaque nascia e morria na ponta do seu nariz. Tratava o professor de filosofia sempre com uma falsa simpatia, ria mais do que devia. Suas perguntas coletoras de informações quase nunca funcionavam, apesar da insistência. Seu vocabulário era pobre e pouco atrativo, suas informações via whatsapp não impressionava até os seus superiores. No entanto, o professor de filosofia já havia sido informado por um aluno (discípulo) sobre as intenções dela e pra quem ela trabalhava. 
Quando caminhava pelas ruas da cidade estava sempre precavido, qualquer arrulhar de pombo fazia ele passar apressadamente a mão no coldre da pistola que ficava no cós da sua calça.
 Porém naquele dia, já no aconchego do seu lar ao anoitecer, o professor assistiu os noticiários dos telejornais que, comentavam sobre o fracasso das rodovias interrompidas com os pneus queimados, que o bombeiro e a polícia militar havia agido rapidamente controlado a situação, e, muitos dos manifestantes foram presos.

Apertou o Play no Projeto musical Mall Star, sentou-se na sua cadeira de balanço na grande varanda, viu milhares de estrelas e a grande lua cheia, sentiu o perfume das flores do jardim, testemunhou morcegos velozes sobrevoando em volta das luminárias, avistou o seu cachorro abanando o rabo sem aproximar talvez, percebendo sua seriedade... Assim sozinho a solidão conseguia alcança-lo, desprovidos de bandeiras, de planos mirabolantes, de frases de efeitos e do todo entusiasmo costumeiro. Ele olhava as margaridas do jardim com tamanha sentimentalidade que parecia outra pessoa e, mesmo assim o cachorro não aproximava, o cachorro tem percepção aguçada, ele sabe quando o seu dono não está bem.



Sim, sentia-se triste com o noticiário dizendo que a paralisação foram feitas por vagabundos e, tinha sido um fiasco. Ficou trancafiado o final de semana dentro de sua casa, e, só ficou sabendo da morte violenta da Dona da cantina na segunda de manhã. Procurou pelo o aluno informante e ficou sabendo que ele havia pedindo transferência na sexta feira a tarde.

Os dias de semanas sequentes voaram até chegar o sábado, quando o grupo reunia-se, no caminho o professor não tirava da cabeça o fiasco dos protestos, procurava respostas para conseguir reerguer a chama do grupo. No entanto, ainda que distante ele avistou um aglomerado de pessoas nunca visto antes em uma reunião, mesmo com toda mídia dando ênfase ao fracasso do protesto, o número de pessoas na reunião havia duplicado então começou a cantarolar War. Madilha que não percebeu que havia mais de um homem filmando seus movimentos atrás do poste.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Boogarins - Manual


Ela sentava sempre do meu lado mas preferia olhar o céu de outono naqueles fins de tarde, eu via o reflexo de fogo em seu olhar, seus cabelos castanhos claros também reluziam a mesma luz porém, não havia nenhum sorriso, nenhuma palavra e o silencio prolongava-se. Não havia mais amor, o que havia era o amanhecer, o entardecer e o anoitecer. Não havia mais entusiasmo o que havia era o café, o almoço e a janta. O sexo tornou-se cada vez mais rápido, mais violento e mais gritado.

Quando o sol se escondia atrás da montanha ela se levantava como sempre fazia todos os dias. Aliás, a única coisa que nos aproximava nos últimos meses era o pôr do sol do outono, nos dias nublados ficávamos sentados em frente da televisão. Não tínhamos diálogos e nem filhos, focamos em nossa carreira, ela se deu melhor, ganhava o dobro do que eu.

Devo confessar antes de mais nada que quem traiu fui eu, e, foram várias vezes que cheguei em pensar em separação. No entanto, eu nunca tive coragem em assumir a outra relação. Ela também era casada e curtia Joy Division, o sexo não era rápido, nem violento e ela, apenas sussurrava em meus ouvidos. Não gostava do pôr do sol, detestava outono e as folhas que caiam das arvores.
Quem me apresentou a ela?  Foi a minha própria esposa:

_Está é minha amiga Malú que, trabalha comigo, aquela que te falei que gosta do Joy Division.
Até ai tudo bem, conheço algumas mulheres com idades de 25 anos que gosta do Joy Division, The Cure, The Smiths... No entanto o que chamou a minha atenção era sua camiseta do Boogarins – Manual. Álbum lançado em 2015.

Minha esposa continuou falando porém, eu não estava mais ali, viajando na camiseta que era a reprodução da capa do Álbum, com rabiscos coloridas tentando esconder uma tristeza gigantescas nos traços escuros, com lápis forçado de uma obra que começa com “Truques”.

Ela sorri, seus mamilos pontudos acompanham o ritmo fazendo dos rabiscos de sua camiseta ganharem movimentos, então eu vejo um arco íris numa terra inóspita.
 Acha que eu estou viajando??? Então ouça:




Nos encontramos outra vez no acaso no bar do Queiroz, na grande avenida iluminada, apinhada de jovens correndo com pneus de caminhão nos ombros ou troncos pesadíssimos de arvores, garotas terríveis com musculaturas do Sylvester Stallone, rindo como se o riso fossem rasgar seus rostos banhados de suores.

_Oi – Ela me cumprimentou, estava com a mesma camiseta da semana passada, numa rápida verificada no local descobri que tínhamos amigos em comum, a música que rolava no bar do Queiroz era "Tempo" do Boogarins, tinha certeza absoluta que tinha sido ela a culpada disso. Talvez respondi o seu oi com um balançar de cabeça. Peguei uma cerveja e fui para mesa que ficava na calçada. A letra da música ganhou um significado gigantesco com aquelas musculosas correndo com seus troncos de arvores no ombro:



Vou me libertar
Do tempo dos homens
Só vou te encontrar
Enquanto eles dormem

Não vou me importar
Com o tanto que podem
Pois quero afrouxar
A coleira dos homens

Esqueça das horas
Pois nada demora

Ame e deixe os outros
Pois bando de bicho solto
É bem melhor


_Oi, Eu falei com você lá dentro e, você não me respondeu. Eu sou a Malú, amiga de sua esposa, a gente se viu na semana passada... Não se lembra?
_Oi, tudo bem? Respondi timidamente.

Malu falava mais que a boca, sabia de tudo um pouco, e, conhecia todo mundo.
Até mesmo as meninas musculosas com pneus de caminhão nas costas.

_Cuidado com esse pneu. Linda!!!
_Malu passa amanha em casa, tenho ótimas novidades para você. Disse a menina com o corpo igual do Sylvester Stallone.

Ficamos horas conversando sobre filmes, músicas e livros que, eu esqueci do horário... Ela falou que seu marido era violento,que ele trabalhava em trecho, que ficava quinze ou até vinte dias ausente de casa, andava sempre armado e nervoso. Inúmeras vezes ela presenciou brigas dele no transito, sempre apontando o seu revolver na direção de qualquer um. Achava-se acima da lei e, quando voltava para casa queria fazer sexo com extrema violência, só que ele sofria de ejaculação precoce, um fraco sexualmente, coitado. E isto deixava-o muito frustrado e violento. Ela disse também que fora agredida por ele várias vezes por sua frustração sexual com socos e pontapés. Que ele acordava no meio da noite banhado de suor e assustado, que pegava seu revolver Taurus cinco tiros, duas polegadas, calibre 38 e disparava contra a lua.

No bar do Queiros agora tocava “Mario Andrade / Selvagem” e, ela cantarolou com a voz triste e ao mesmo quase vazia:



Há dias que eu sinto meu corpo frio e oco
Deixo passar
Eu me esqueço o tempo todo e pouco a
Pouco eu sinto outro em meu lugar


Voltei para casa, era noite de outono com seu vento frio arrastando consigo as folhas das arvores secas e sem vidas, as luzes de mercúrio dos postes conseguiam dar um tom mais melancólico aquela cena, não havia transeuntes e nem carros.  O que havia era dezenas de gatos em cima dos muros, nos telhados e nas lixeiras. Gatos Persas, Siameses, Angorás e outros sem raças definidas. Apoiei na vitrine de uma loja. Estava embriagado, enxergava tudo desfocado e ouvia uma música que repetia dentro de minha cabeça.


Percorrer
Distorcer um sonho
Vou viver por viver
Sem dono...

Foi justamente nesse dia que os meus juramentos foram embora, em forma de um vomito interminável, pensei que ia morrer na calçada cercado por angorás, siameses e persas. Eu vi a lua e, tive vontade de atirar em sua direção também. Eu vi algumas estrelas, luzes de mercúrio e mais gatos siameses. Ouvi o apito do guarda noturno, o som do vento nos fios elétricos, das folhas secas das arvores arrastando-se no asfalto.
Consegui por alguns instantes equilibrar-me num portão de grade, perturbando o sono de um Pastor alemão furioso. Em sequencias de luzes acesas, do quarto, da sala e da varanda. Um grito forte irrompe o latido do pastor alemão, oriundo de uma porta semiaberta:

_Vai embora seu bêbado, Filho da Puta.

Fui, escorando o muro de concreto, tateando palmo a palmo, vertigens alucinógenas, cores e rostos a cada piscar de olhos, sorrisos proveniente da escuridão, a loucura é colorida feito as pinceladas do vaso de girassóis de Vicent ou do álbum Manual do Boogarins.

Alguns meses depois...


...Vou perder você agora porque depois eu não suportaria, tomarei um café frio e amargo sozinho enquanto você dorme, ficarei a noite inteira acordado e com a janela da sala aberta, alimentarei na madrugada as mariposas com leite integral e, quando o sol aparecer você ainda estará dormindo, exausta do trabalho. Cortarei todas margaridas do jardim que eu plantei antes de partir pois, eu sei que as lembranças elas nos fazem emagrecer e adoecer. As lembranças são febris, tenha paciência que está próximo do final do outono e o inverno já não é tão rigoroso como antes. 

sábado, 11 de março de 2017

David Bowie - Blackstar


Lembro-me que você disse sobre o buraco negro, de suas palavras multiplicadas, das suas pupilas dilatadas, do seu riso que fugiu dos seus lábios antes do cumprimento da frase, você já estava louco, delirando, confundido Freud com Darwin. Pisei fundo no freio quando um cachorro apareceu do nada no meio da Rodovia e, você gritou, como nos velhos tempos que você gritava com o medo da chuva.



O cheiro dos pneus queimados nos fez tossir muito, somos muito parecido admito. Eu sorri olhando para o retrovisor testemunhando o cachorro ileso. Acelerei novamente observando seu rosto tão contraditório ao meu riso. Dormiu ainda amuado no banco traseiro do carro, talvez nem tenha percebido a lua e as milhares de estrelas do céu. Talvez nem notou quando parei o carro no meio do nada, abri a porta e sai, talvez nem ouviu o meu choro, a minha reza e o meu desespero.




E, justamente nesse desespero sentado na guia sob milhares de estrelas, sob lua. Pensamentos, centenas deles apossaram de mim, conduziram -me há vinte um anos atrás. Eu estava assustado com vinte dois de idade, trêmulo diante do maior milagre da vida, a vida. Não me lembro se sorri ou se chorei mas, eu me lembro de uma leveza tão grande em meu corpo, porventura se quisesse voar pelo hospital feito um pássaro juro que eu conseguiria, tamanha era a leveza e a felicidade que eu sentia.




Voltei para o carro, enxuguei minhas lágrimas, liguei o som, o último álbum do David Bowie -  Blackstar. Aumentei o volume e ouvi a voz dele.
_Abaixe o som Pai.
Não abaixei aliás, aumentei no volume máximo.
 Ele acendeu o cigarro. Pedi para ele abaixar o vidro.
Quando se aprende a fumar??? Eu sempre fui um péssimo fumante mas, admirava os profissionais, aqueles que engoliam a fumaça e conversava com você pra depois soltá-la, seduzia me aqueles que faziam desenhos com a fumaça. Fui um péssimo fumante.



Ele sabe fazer desenhos com a fumaça, eu observo enquanto dirijo: corações, bolinhas, triângulos. Isso, já não importa mais, odeio bolinhas, corações, triângulos, fumaças, eu odeio cigarros. Ele odeia David Bowie.
_Nossa Pai que som horrível.
Engulo em seco, David Bowie horrível pois, eu sei no fundo do meu ser que, se meu filho acha David Bowie ruim, a culpa é minha, não fui um bom pai.  Durante os primeiros anos o meu colo era o seu preferido, torcíamos para o mesmo time, cantávamos juntos o clássico “Heroes” do próprio Bowie. Tudo indicava que ser pai não tinha segredo até a primeira reclamação na escola.



_Seu filho não está obedecendo os professores, tem um comportamento antissocial e, não costuma aceitar as regras da escola.
No início eu achei que a diretora estava equivocada, acreditava cegamente que ela tinha confundido o meu filho com outro aluno. Meu filho era um anjo, não saia de casa sem a minha permissão e quando saia sempre ligava.
_Pai, estou aqui na Praça do centro as 22:00 horas estarei em casa.
Ele sempre cumpria os horários.
Divorcie-me alguns anos depois deste acontecimento, meu relacionamento com minha esposa pioraram com a descoberta que meu filho estava usando drogas. Eu achava que podia intervir na conduta dele, as vezes usando a violência verbal ou física. Minha esposa era oposta, aliou-se a ele, tinha opinião diferente e, que com sua maneira poderia mudar o jogo. Fiquei sem esposa e sem filho.




Blackstar o novo álbum do David Bowie comprei semana passada com mais de um ano de atraso, já conhecia todas as músicas mas, faltava o álbum físico, estou feliz com aquisição porém, devo confessar que a minha felicidade nunca mais foi mesma e, as vezes chego duvidar que ela realmente existe. Porém, o desconforto dessas visitas inesperadas, vagarosamente começa nutrir em lampejo dessa felicidade. No inicio eu achava que essas visitas era apenas para ele obter dinheiro para comprar drogas, mesmo com tanta discordância, mesmo com tanta ironia de ambos os lados, ressentimentos, culpas e silêncios prolongados, Enfim...
Antes de descer do carro ele faz uma pergunta perturbadora:
_Pai, você ainda gosta da mãe?
Demorei um tempo pensando, todos os conflitos desgastantes, agressões, palavras ofensivas. Ela quebrou meus vinis do David Bowie, ela se casou novamente, tem um outro filho, eu apenas envelheci... Quase que algumas lágrimas fugiram dos meus olhos.
_Um pouquinho – Respondi.
Então ele saiu do carro, ficou olhando pra mim pensativo e disse.
_ Sobre o David Bowie, Pai. Eu gosto um pouquinho dele também.

Esperei ele entrar, sua mãe esperava na varanda... Acelerei o carro, todo feliz “Eu gosto um pouquinho dele também”.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Pearl Jam - Yield


Que seja a melhor amiga de coque chinês, que tranque a porta e abra janela, que venha com filtros de contraste no rosto, que tenha um sorriso imenso que esconda a tristeza, que deixe as lagrimas caírem no chão, que sua boca pronuncie sinônimos, que tenha um cachorro do porte pequeno, que aponte o pôr do sol e dance no meio da chuva.


Estou me apaixonando outra vez, mergulhando no rio sem saber a profundidade, acreditando no fator sorte, a sorte que sempre tem me ausentado nos últimos anos, esperando que a esperança nunca morra, criando expectativas em arvores com raízes apodrecidas, que floresça e dê frutos mas, tenho que correr agora pois, o ônibus já vai passar, dormir em rodoviárias são experiências horríveis que, torço para que nunca mais se repitam.

Ela ri da minha situação precária, da minha timidez visível, do jeito que eu olho para o vazio. No entanto, ama minha coleção de vinil do Pearl Jam, gosta quando eu canto In Hiding ainda que desafinado, diz que gosta da minha companhia mesmo quando está com sono.


Então, para desorientar-me de vez, ela desfaz o coque chinês, deixando seus cabelos lindos, compridos caírem num balanço teatral, espalhando um doce perfume provocando em mim, dezenas de espirros embaraçosos.

_Desculpe, eu, eu sou alérgico.

E ela ri, ri muito, até perder o folego e, eu perder o ônibus.
Na rodoviária esperando o primeiro ônibus do dia, morrendo de medo, encolhido no banco observo um sujeito aproximando-se com um embrulho na mão:
_Hei amigo (minhas pernas tremem), Você não quer comprar este panetone da Bauducco por R$ 3,80... Acabou a gasolina do meu carro, o litro custa R$ 3,80 e, eu chego na casa da minha tia.


No fundo eu sabia que aquela história não tinha sentido algum, que dinheiro era para comprar droga, de qualquer modo não hesitei, arranquei uma cédula de dez reais da carteira e entreguei.


O ônibus chegou 5 horas da manhã...
E dentro do ônibus,sentado e com a cabeça encostada no vidro eu via centenas de luzes dos postes como se fosse um risco continuo, cochilei e abri os olhos. Eu via a garota de coque chinês em todas as esquinas, em todos pontos que o ônibus parava. Não estava doente, era apenas uma tosse que não me abandonava, uma alergia, uma coriza e dezenas de espirros.



Hoje faz um mês exato que não a vejo, um mês exato que eu ouço diariamente Yield, o álbum favorito dela do Pearl jam. Eu sei, ela era diferente da maioria das garotas que prefeririam o álbum Ten. Ela não, sua música predileta é Given To Fly.



Tive vontade ligar pra ela e me declarar porém, o medo sufocou toda minha coragem e, sentado em frente do portão da minha casa eu fiz as melhores poesias, com violão faltando uma corda, eu cantei dezenas de vezes In Hiding... Sei que tudo é incerto, tudo em volta é complicado, pássaros perdem suas vidas chocando-se nesses prédios modernos espelhados, o resfriado tornando-se mortais e incuráveis a cada ano que se passa... Sinto que talvez eu nunca mais a veja, cada despedida eu tenho essa sensação, aconteceu isto com minha fé quando voltava para casa num Domingo a tarde, uma criança de quatro anos idade soltou-se da mão do Pai e entrou na frente de um ônibus, minha fé foi embora nesse dia e, nunca mais voltou.



Então, eu penso que o destino fará a gentileza de encontrá-la pelas as ruas da cidade, talvez com marido e filhos, que ela não me reconhecerá iguais aos pássaros que não identificam os prédios modernos espelhados mas, eu reconhecerei pois sempre tive esse lado visual como um ponto forte e muito bem desenvolvido, mesmo que não esteja usando mais o coque chinês, com os cabelos curtos e com uns quilinhos a mais, devota de algum santo, catequista de alguma igreja... E eu, talvez calvo, cabelos grisalhos, sentando no banco da praça central da cidade, desquitado, aposentado e sem religião, espirarei com o perfume do seus cabelos quando passar por mim no entanto, não me reconhecerá.



Somente quando ela chegar em sua casa e o seu marido quiser queimar toda suas bugigangas, e, seus olhos depararem com o álbum Yield, paralisada por alguns minutos ela ficará, talvez se lembrará dos espirros e correrá para praça novamente mas, eu já estarei distante, ouvindo In Hiding.


Sei que tudo é incerto, tudo em volta é complicado, pássaros perdem suas vidas chocando-se nesses prédios modernos espelhados, o resfriado tornando-se mortais e incuráveis a cada ano que se passa...


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Muito Antes de Laura - Muito Antes de Laura

Muito Antes de Laura - Muito Antes de Laura

(Para o Blog Relato Estrépito continuar em 2017 terei que agregar minha outra paixão além da música, a fotografia... Relatos como este será cada vez mais constante... Abraços).


Alguém veio me visitar e deixou este álbum aqui, não sei quem? Porém, essas musicas me acompanham o dia inteiro. Entre o Relato deixarei algumas músicas que, certamente já faz parte do meu dia a dia.



Quando tento dormir sou impedido por imagens que vem a minha cabeça, imagens oriundas não sei de onde, de lugares que desconheço. Há uma garça branca no meio de um lago cheio de peixes e rodeada da solidão. Existe um biblioteca por perto mas, os garotos e as garotas nem percebem extasiados pelo efeito da fumaça que inalam: sorrisos fáceis, alegrias falsas de uma vida superficial.



Levanto e caminho pelo quarto, outros imagens deste mundo surreal vem à tona, alguns passos, me deparo com outro lago onde martim-pescadores sobrevoam, crianças atiram pipocas para os peixes coloridos. Aproximo do lago e perto da imagem de São Francisco um casal de viuvinhas preparam seu ninho numa arbusto todo florido. Não tenho certeza mas, algo me diz que eu já estive aqui antes.




Ouço um barulho no alto da palmeira, um gamba descontraído alimentando-se do fruto amarelado, fico ali observando todos os seus movimentos até surgirem as fanfarronas das maritacas. Mais alguns passos me deparo com um Rio de águas amareladas. Um arrepio percorre lentamente o meu corpo inteiro, adiante um lindo pôr do sol e ao meu redor um Rio que pede socorro.



Ouço alguém batendo na porta do quarto, é médico e suas visitas quase que diárias desde que sofri um acidente e minha memória se apagou. Pergunta como estou, e ,respondo que mais imagens deste Bosque Surreal continua aparecendo. Então pela primeira vez o médico me disse:
_Roberval este Bosque, ele existe e se chama Bosque da Princesa e, todas essas imagens que você me descreve também são suas fotografias. Você fotografou todas essas imagens que te perseguem



O médico abriu uma pasta, enfim deparei com centenas de fotos com minha assinatura, fotos que mesmo debilitado me perseguem.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas

Coisas belas ditas pelo velho pároco, ao seu lado um jovem aspirante a padre dotado de um olhar misterioso, coisas da missa matutina do domingo na igreja que ficava no final das vielas, contrastava com os pecados diários que eu cometia, nem a benção do padre ou Pai Nosso valia o meu dia, nem mesmo o sol incrivelmente posicionado no meio do céu me tirava do meu esconderijo do meio do matagal. Debaixo das arvores que possuíam espinhos pontiagudos, eu e meu amigo Linari criavam ali personagens fortes e maldosos, verdadeiros super-heróis que não sentiam amor e nem piedade. Somente quando eu ouvia os gritos de mamãe me chamando o medo desvestia-me do torpor, voltar para casa e encontrar papai bêbado resmungando palavras de ordem e palavrão era um grande saco. Papai não sentia amor... Eu não sentia amor.

 No começo de uma noite fria e tenebrosa infestadas de rajadas de vento, debaixo da arvore de espinhos pontiagudos, rodeados por dezenas de vaga-lumes, no céu de algumas estrelas reluzentes que, apareciam e desapareciam entre as nuvens escuras de uma tempestade anunciada. Lembro-me do grito de mamãe diferente como se fosse trovão rasgando aquele começo de noite, não era palavras, era uivo de dor feito um animal que sente frio e fome. Nem me despedi de Linari, senti aquele grito penetrando meus ouvidos como se fosse um inseto mastigando vorazmente meus tímpanos, corri desgraçadamente derrubando todo o matagal no peito e, ao aproximar da velha casa sem reboco, eu vejo minha mãe sentada no chão, com as mãos colada no rosto chorando compulsivamente, meu pai que não sentia amor estava estirado no chão sem vida.
Foi quando um estranho que saiu não sei de onde, encostou uma arma pro meu crânio e eu, nada pude fazer a não ser me ver balbuciando febrilmente, implorando:
"Eu não estou pronto pra morrer"


Ainda persiste uma dúvida que talvez nunca vá esclarecer. Ainda persiste uma dúvida que eu não me canso de remoer, os dias subsequentes foram os mais cruéis de minha vida, a lamuria tem cor cinza e os dias impares são os piores.  A cerca de arame farpado e a falsa liberdade diante dos meus olhos murchos pela oprimida vergonha da veste e da fome.
No fim da ladeira, entre vielas tortuosas, há uma vila de casinhas silenciosas. Numa manhã fria, eu saí de uma delas passos lentos e silenciosos, sem dizer adeus e nem olhar para trás. Porém, nenhum dia se quer a vila saiu dos meus pensamentos... Em meus sonhos eu caminho por todas as vielas, conheço todos os cachorros que perambulam pelas as ruas, conheço todas as casas no entanto, nos meus sonhos eu sou um desconhecido, os cachorros avançam na minha direção e a minha mãe não me reconhece, sempre na janela com olhar triste e ao mesmo tempo vago. Sempre acordo assustados todas as vezes e, imagino aquelas vielas tortuosas como se eu nunca tivesse me ausentado dali.


Eu desconheço exemplo mais eficaz do que uma criação inadequada é capaz e, os dias cinzas e chuvosos sempre me entristece bem mais que deveria, fugas de lagrimas e a incontrolável tremedeira que nenhum agasalho consegue me aquecer. Na rua as pessoas vem e vão, hoje eu tenho essa convicção, eu poderia voltar agora mesmo no meio dessa chuva, no meio da noite entre os relâmpagos e o barulho do trovão mas, a coragem que eu tive para partir eu não tenho para voltar, mesmo que isso cause ulceras gigantes, angustias e tonturas, insisto em ficar aqui. Meu orgulho está me matando... E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com suas próprias unhas.




Mas, como dar amor se nunca recebeu, balbuciar palavras dóceis com os lábios ressecados e lembrar do amor escondido num lugar onde ruído se abafe... Eu não estou pronto para morrer.



TV on the radio – Nine types of light


Ela não virá, ele pressente, mas ainda espera. Ele olha repetidas vezes para o relógio, não consegue disfarçar a ansiedade e o desconforto.  O celular nunca toca nessas horas, é visível sua tristeza, no entanto, ele tenta disfarçar falando mais do que habitual, rindo mais do que deveria e bebendo apressadamente.
Ela não virá agora é uma certeza para todos, porém ele ainda insiste em olhar pra mesma direção, verificar o relógio. Ele parece não acreditar, pensa em ligar pra ela, não completa a ligação pela quinta vez. Já não ri mais como meia hora atrás, retraído quase que não fala, e pela segunda vez derrubou a bebida na mesa.
Ela não virá passa a ser uma certeza pra ele também que, quase cai ao levantar-se da cadeira, sente-se inseguro em caminhar, enxerga duas luas apoiado no tronco de uma jabuticabeira.
Diz estar bem pra todos que se aproxima, diz estar bem também quando não tem ninguém ao seu redor. Abraça forte a jabuticabeira e começa a questionar:
Por que ela não veio?
Por que?
Chora um choro sem lagrimas ainda assim um choro verdadeiro. Tira o celular do seu bolso, nenhuma ligação. Joga o celular para bem longe. Ri ainda abraçado na jabuticabeira, um riso sem graça e sem motivo. Recupera-se. Ainda há duas luas no céu e um imenso caminho até chegar ao banheiro.
Ele já está lá não e sabe como, o lavatório verde não combina com vaso branco, porém a vontade de urinar é tanta que o jato rápido e incerto molha as paredes e o chão. A descarga de cordinha é um descanso para o seu braço. Cem litros de água para 400 ml de urina. Ele não lava as mãos, o sapo não lava o pé.
Fim de festas, mesas vazias, ela não veio, e isto, foi um tiro em seu coração.
Duas luas, uma lua meia, uma lua. Isto agora não importa. Ele chutou as cadeiras e jogou a mesa para bem longe. “Foda-se todos” ele gritou.
Voltou para casa, ligou seu aparelho de som. Um micro system que ganhou daquela vadia que não compareceu na festa. Apertou o play.
Second song passou despercebida... Keep your heart acompanhou seus movimentos até geladeira, uma geladeira que mais parecia um deposito de cerveja... You... Yyooouuu, assim foi feita a escolha.
Vadia, vadia, vadia... Repetiu exaustivamente essa palavra que só “Will Do” trouxe de volta a realidade. Abriu a janela apenas uma lua, tudo começou a fazer sentido novamente.
Forgotten... Outro jato de urina agora certeiro no vaso branco que combina com lavatório. Decidiu tomar um café para curar da ressaca que começava a incomodar... Apertou o display também para certificar o que estava ouvindo... TV on the radio – Nine types of light.

Ah! Só podia!


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