terça-feira, 18 de julho de 2017

Sonic Youth - Daydream Nation





Sonic Youth 
Daydream Nation




Não sei ao certo o porque resolvi sair armado aquela noite, minha visão estava embaçada e a chuva era interminável, o vento era frio mas, não obrigava me agasalhar, a iluminação das ruas era péssima. Vultos nas encruzilhadas, as vezes eu passava a mão direita no cós da calça apenas pra certificar se a arma estava lá com o tambor carregado.

Lembro claramente a primeira vez que apertei um gatilho, foi no Exército com um fuzil. Dois tiros certeiros e o terceiro que até hoje eu não sei aonde foi parar.

 Não, não me apaixonei por armas. No entanto, comprei um revolver que estava no cós da minha calça incomodando o meu andar.

 Minha visão estava embaçada e haviam vultos me perseguido... Porra, assustei me com um cachorro vira-lata e, demorei uma eternidade pra puxar o gatilho, da próxima vez eu não poderia vacilar... Minha visão estava embaçada.

Minha mãe sempre dizia que eu tinha mania de perseguição por isso o motivo de tantos remédios ingeridos diariamente.
(Mamãe morreu alguns anos atrás)

Desarmei o guarda-chuva ao chegar ao ponto de ônibus, um senhor com cabelos grisalhos encolhido no banco tragava seu cigarro calmamente, olhando os pontos inexatos dos pingos da chuva. Ele não me viu no entanto, pressentiu minha presença. Passei vagarosamente minha mão direita no cós da minha calça, senti o trinta e oito volumoso e carregado.

Nunca precisei usar este revolver em situação real de perigo, poucas foram as vezes que me afugentei para o meio da mata e dei tiros à revelia, era um espécie de escape pro meu estresse.

Devo confessar que antes de sair de casa eu tinha ouvido o álbum do Sonic Youth – Daydream Nation repetidas vezes que o barulho emanado deste álbum ainda estava revirando minha cabeça.



 Eu estava atento a tudo, bem mais que deveria e, uma simples tosse do senhor de cabelos grisalhos me fez sacar o revolver agora sem vacilo e, apontar em sua direção, o senhor continuou tossindo enquanto os meus dedos deslizavam intranquilos e trêmulos. Mil pensamentos distorcidos fizeram redemoinhos de minha sensatez, foi quando o Senhor de cabelos grisalhos olhou para minha direção, seus olhos emergiam chamas de fogo e de sua boca desdentada uma nevoa acinzentada assessorava sua tosse seca. Apertei o gatilho repetidas vezes e corri com toda pressa do mundo contra chuva para um ponto seguro.

Nos meus ouvidos ainda ressoavam a música: 
Cross The Breeze



O que era aquilo? Meu Deus o que era aquilo?
O cano ainda quente do revolver e duas munições ainda no tambor. Eu não sabia onde estava, perdido na cidade que eu nasci, uma viatura da polícia me fez esconder atrás de uma lixeira. 



Eu deveria ter tomado todos os meus remédios e, não deveria ouvir Sonic Youth no último volume.


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