sábado, 29 de julho de 2017

Black Sabbath - Paranoid


Era três da manhã quando o telefone tocou, estiquei minha mão trêmula em direção ao criado mudo.

_Alô?

Do outro da linha um chiado ruidoso, cachorro latindo, vozes e risadas ao fundo. 

_Alô? Insisti e ninguém respondeu.

 Desliguei o telefone e ouvi um barulho vindo da cozinha.

Meu Deus, eu estou enlouquecendo. Durante a madrugada eu ouvi gargalhadas e vozes pela casa inteira, televisão que ligava desligava sozinha, cachorro que latia pelo quintal sendo que eu não tinha mais cachorro, luzes  que acendiam e apagavam sem ninguém tocar no interruptor. O barulho de gotas da torneira do banheiro, passos pelo telhado e um frio insuportável que me fazia bater os dentes debaixo do cobertor.

Tentei uma oração, um Pai Nosso mas, o rancor que apossava do meu coração me fez interromper pelo meio. As luzes continuavam acendendo e apagando.  O latido do cachorro aproximou-se da janela, o frio aumentou, levantei enrolado num cobertor, abri janela nenhum cachorro,  ouvi o pio de uma coruja no pico do poste de luz da rua, pensei mau agouro. Olhei para o relógio da parede 3 horas e 10 minutos da madrugada e, então começou a tocar no aparelho de som no canto do quarto Black Sabbath o álbum Paranoid, assim do nada. Detalhe o aparelho estava desligado da tomada. 


A partir desse dia que o aparelho ligou sozinho, comecei a ter uma visita estranha no quarto, as vezes a janela abria sozinha e o vulto ficava ali e outras vezes o vulto aparecia do meu lado em cima da cama. Nesses momentos o frio ficava quase insuportável, um cheiro de enxofre invadia o quarto,as batidas frenéticas e descompassadas do meu coração era tão forte que só faltava o coração sair pela boca, a primeira vez que isto aconteceu pensei, torci e desejei que um desmaio ocorresse e não ocorreu. 



O vulto usava um capuz preto, suas pupilas eram vermelhas e giravam sem parar, cobrir a cabeça sob o cobertor ou fingir um desmaio não adiantava nada, o vulto permanecia ali com seus olhos vermelhos giratórios. 
Um dia criei coragem e perguntei: 

_Quem é você? 
Estava tremulo. E sem muita delonga veio a resposta.
_Eu sou a morte, e vim te buscar.
Respondi assustado quase que num grito:
_Eu não quero morrer!!!
A morte desvencilhou seus olhos dos meus e o cheiro de enxofre ficou mais forte, rajada de um vento gélido derrubou portas retratos da penteadeira e, sua voz robótica ecoou em meus ouvidos:
_Você já está morto.
_Como assim? Indaguei. No entanto num passo mágica a morte desapareceu, o volume da música ficou mais alto fazendo tremer a imagem de Nossa Senhora Aparecida na mesa de cabeceira.


Porém, suas visitas tornaram-se constantes sempre as 3 horas da madrugada, sempre o mesmo odor de enxofre, sempre o mesmo frio insuportável e sempre o mesmo álbum Paranoid do Black Sabbath.

Uma noite a morte sentou-se na minha cama com um livro gigantesco, o frio fazia meus dentes entrarem conflitos num batimento frenético e audível. Então, a morte começou a folhear aquele livro cheios de fotografias, com imagens perfeitas que, cheguei piamente acreditar que a morte possuía uma Canom e, saia durante o dia disfarçada de vida para conseguir aquelas fotos. E, cada foto que ela me mostrava, tinha sempre um questionamento.

_Você se lembra dessa pessoa aqui?
_Lógico que me lembro.
_Ele te visitou nos primeiros dias que você estava sozinho, mostrou a maior preocupação com você, Certo?
_Sim.
_Veja foto, vejo o sorriso dele. Tá vendo, ele parece feliz. Você acha ainda que ele pensa em você?
Continuou:
_Essa foto então. Repare, ela está no barzinho com amigos tomando vinho, parece bem descontraída. Bem diferente de você, né?

Uma lágrima rolou pelo meu rosto, interceptei com a minha mão esquerda. No entanto, vieram outras e outras e, tudo ficou descontrolado com soluços e o nariz escorrendo.

_O problema sempre foi você, sem você na vida deles era somente felicidade... Eles dão risadas quando falam seu nome, fazem piada sobre sua tristeza, imitam seus gestos e sua voz com deboche... Qual foi última vez que alguém ligou pra você?

Antes que eu respondesse a morte antecipou:

_Eu sei, foi ontem a tarde, alguém te indicando um profissional, um psiquiatra – A morte foi até cozinha e voltou com uma de cerveja na mão:
_ Você está deprimido, está morto, fazendo e refazendo o mesmo caminho observando o que ninguém vê, testemunhando as folhas secas que desgrudam dos galhos das arvores num rodopio triste e melancólico até chegar ao chão. Eu sei quanto tem chorado e o quanto está confuso. Tenho acompanhado sua vida desde criança... Você se lembra quando caiu da bicicleta batendo a cabeça no asfalto?
_Sim, eu me lembro. Tinha oito anos de idade – argumentei.
A morte então me respondeu:
_Eu sei que você tinha oito anos de idade. Eu estava lá, do outro lado da rua. Teve uma outra vez que você se afogou no Rio e o seu irmão mais velho te salvou.
Eu questionei:
_Você estava lá também?
_Eu era redemoinho que tentava te levar para profundeza do Rio.


Prolongou-se alguns minutos de silencio até a morte fazer uma previsão.

_Haverá três dias de uma chuva incessante, dia e noite – Falando isto a morte desapareceu.

A morte estava certa, foram três dias de muita chuva, trovoes e relâmpagos. Três dias que centenas sapos invadiram o meu quintal durante a noite e ficaram em frente à janela do meu quarto coaxando repetidamente. Sapos de todas espécies: sapo cururu, sapo pipa, sapo malaio, sapo martelo, etc. Da janela eu atirava bolas de papeis, chinelos e latas de cervejas vazias tentando afastá-los no entanto, eles continuavam coaxando sem parar, numa somatório de sons diferentes e perturbadores.

 Justamente as três horas da madrugada apareceu uma luz tão brilhante no quintal que quase me cegou, os sapos pararam com o coaxar e, abriram um caminho para que aquela luz forte passasse por entre eles, fui obrigado atirar-me sobre minha cama para dar passagem para aquela luz que entrou pela janela, o aparelho de som não ligou no habitual álbum do Black Sabbath “Paranoid”, aliás não tocou musica nenhuma  e a luz brilhante rondou pela casa inteira, cozinha, sala banheiro e, depois voltou para quarto, ficou um tempo na minha frente como estivesse me observando, sumiu de repente, como um soprar de vela, apagou-se. E assim foi durante as três noites da chuva incessante, com centenas de sapos pelo quintal e com o itinerário que luz fazia pela casa inteira.

Na primeira noite após o término da chuva a morte voltou, fazendo a casa inteira tremer, dos seus olhos saiam faíscas de fogo, o cheiro do enxofre ainda mais forte do que nunca, centenas de cachorros rottweilers apareceram no quintal latindo sincronizado, a imagem de Nossa Senhora Aparecida caiu da mesa de cabeira transformando em cacos espalhando pelo piso frio do quarto, o aparelho do som estava no último volume à música era Paranoid, a voz de Ozzy Osborne misturava-se com os latidos dos cachorros:


Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind
Terminei com minha mulher porque ela não poderia me ajudar com minha mente
people think I'm insane because I am frowning all the time
As pessoas pensam que eu sou louco porque fico mal humorado todo o tempo
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify
Durante o dia eu penso em várias coisas mas nada parece me satisfazer
Think I'll lose my mind if I don't find something to pacify…
Acho que vou enlouquecer se não achar algo para acalmar...

A morte aproximou lentamente da minha cama, seus olhos agora jorravam labaredas de um fogo quase que vermelho, os latidos dos cachorros cessaram e sua voz robótica ecoou por toda casa:

_Então, procurou um psiquiatra – A morte riu até quase perder o folego, e, continuou: _Ajuda química para uma vida superficial. Não fique alegre com duas horas de sono, a maioria das pessoas suicidas acabam com suas vidas abusando na primeira crise bipolar da própria química que “cura”.

Falando isso a morte atirou em minha direção todo medicamento que eu tinha adquirido no dia anterior, com prescrição do psiquiatra, a morte continuou rindo:

_Você já leu a bula do remédio?
E antes de responder a morte me disse:
_É pequena diante da bula dos seus problemas. Você sabe que não vale pena remediar de uma situação que está fora do seu controle.
Dizendo isso a morte desapareceu e o som continuou:


And so as you hear these words telling you now of my state
Então você que está ouvindo essas palavras que falam sobre o meu estado
I tell you to enjoy life I wish I could but it's too late
Eu digo para você curtir a vida, eu queria, eu poderia, mas é muito tarde.






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